GUSTAVOT DIAZ

poética, corpo e experiência

  • CANÇÕES PARA DESARMAR BOMBAS

    Algumas considerações sobre a produção poética, por ocasião do lançamento do meu livro de estreia canções para desarmar bombas, pela Editora MONDRU.


    de que vale mudar em verso

             o gesto vivido?

    se, no início, o verbo era o ser

    escrever é sacar a carne

             da metáfora primordial

    canções para desarmar bombas (2023) p. 141

    Este trecho do poema [excertos de um tratado de escrita por escrever], enuncia a pergunta fundante da poesia: para que escrever? O que se ganha ao transformar em palavras o vivido? A experiência é nossa mediação mais ampla com o mundo. Tendo em vista que não vivenciamos o mundo, apenas o experienciamos conforme determinadas coordenadas, quando essas se transformam, transformam a experiência. Aí se esconde talvez a função mais eminente da arte: emular coordenadas para o alargamento experiencial (portanto, existencial). Escrever não é melhor do que o viver em si, mas a palavra pode dar sentido às vivências e prospectar outras.

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  • [PROCESSOS POÉTICOS] AS DIMENSÕES DA IMAGEM (Parte II)

    As estruturas semânticas e identitárias que estabilizam nossa experiência de realidade evitam que o Real emerja em toda a sua violência e caos. A tarefa da poética é desarticular a linguagem de seus condicionamentos “antropologofalocêntricos”[1], reintegrando à palavra seu poder criativo, para além de simulacros.

    Compartilho mais uma parte do conteúdo do Processos Poéticos, desta vez tematizando as identificações (no artigo anterior, você encontrará alguns temas introdutórios). Na música O Quereres – composição de Caetano Veloso, o autor fala em decassílabos a respeito do querer humano e certo “desreconhecimento” de si para consigo mesmo, procedente de uma divisão interna que nos faz querer uma coisa que na verdade é outra. A canção ilustra como a essência do desejo humano é um descompasso inevitável entre expectativa e frustração. Ou seja, a “outridade” de um querer que nos habita, mas é incontrolável, revela mais de nós do que os gostos e predileções conscientes.

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  • [PROCESSOS POÉTICOS] AS DIMENSÕES DA IMAGEM

    Esse texto aborda um dos conteúdos do curso Processos Poéticos, e é continuação programática do artigo anterior acerca do desver como recriação da experiência.

    O desenho como experiência

    Os experimentos de Brunelleschi dão uma bela ilustração da experiência do sujeito moderno – no qual prevalece um novo tipo de subjetividade emergente na Europa entre os século XIV e XV. A riqueza de seus experimentos simbolizam um sujeito que demandava uma certeza empírica do mundo: a certezza em lugar da opinione. A subjetividade de nosso século, claro, não é mais configurada assim – condições diversas constituíram dialeticamente um ser diverso – no entanto, seu surgimento no horizonte da arte daquele período nos ensina alguma coisa. Considerando que toda obra de arte é um conjunto de coordenadas gerativas de experiência, recorreremos à Psicanálise para uma explicação mais ampla e complexa da estrutura deste fenômeno, a partir do qual compreenderemos a dinâmica experiencial da produção artística.

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  • [PROCESSOS POÉTICOS 5ª ED] ENCONTRO 2 | DESVER: O DESENHO COMO EXPERIÊNCIA VISUAL

     Quando penso que vejo, quem olha

    por mim enquanto estou pensando?

    Fernando Pessoa
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  • [PROCESSOS POÉTICOS 5ª ED] ENCONTRO 1 | “Desinvenção da visão” (Parte II)

    Todo artista intui e de algum modo sente na pele que sua atividade criativa não é devidamente aceita; e quando aceita, não é bem compreendida. Nesse caso é ainda pior: a censura é intolerável, mas não há interdição maior do que articular uma língua que ninguém entende, numa linguagem que nada significa aos outros. Realmente, o dilema maior do artista parece ser aceitar a sua própria verdade.

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  • [LIVE] “A formação do artista” | COM MARCOS BECCARI

    A formação do artista

    Nesta Live com Marcos Beccari, falamos acerca de como se deu a constituição do “artista” na Renascença europeia; as condições objetivas e subjetivas de seu aparecimento histórico. Esse conteúdo servirá também como base de nosso primeiro encontro do curso PROCESSOS POÉTICOS, que inicia em 15 de abril.

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  • [PROCESSOS POÉTICOS 5ª ED] ENCONTRO 1 | “Desinvenção da visão” (Parte I)

    Para cumprir a difícil disposição de se assumir artista, compete ao sujeito compreender a singularidade que distingue o gesto artístico – singularidade esta, que em geral se chama poética. E o meio mais eficiente de expressão desta singularidade é o conhecimento das referências, dos traços pendulares, dos campos semânticos e lexicais do trabalho – ou seja, a constituição simbólica, ou linguística de tal fazer singular. É isso que denomino “articulação plástico conceitual”, cuja operação pode esclarecer o artista quanto aos recursos expressivos de sua atuação.

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  • O constante e o diverso na produção de MARIA TOMASELLI

    A imensa, diversificada e, no melhor sentido da palavra, caótica produção de MARIA TOMASELLI reage ao enquadre curatorial contemporâneo que em geral privilegia uma narrativa, um discurso poético-conceitual específico, uma categoria de linguagem: é no caos que essa artista gaúcha se encontra; na variedade, tanto de forma quanto de categorias, seu trabalho produz unidade.

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