Dentre as expressões artísticas, o Retrato é, sem dúvida, a mais icônica. Utilizado por metonímia como sinônimo de “representação”, já no período anterior à era imperial, os romanos cultivavam na retratística um impressionante realismo. Este fato constitui um curioso “anacronismo”, se supormos que o ferramental e a disposição subjetiva realistas tenham se dado apenas a partir das condições criadas no Renascimento, ou apenas no século XIX (conforme aprendemos com Erich Auerbach). Porém, escritores da antiguidade já dedicariam estudos ao tema, tamanha era a autoconsciência do significado do Retrato – tanto na esfera pública, quanto privada. Essa pregnância temática garante-lhe autonomia de categoria plena dentre as expressões artísticas, e assim como o “nu” – o Retrato pode também ser considerado uma “forma mesmo de arte” (vide Kenneth Clark). (mais…)
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CHRISTOPHER STOTT | “Dream Days” (óleo sobre tela, 14′ x 18′) Segunda parte do conteúdo a ser ministrado na Oficina
“FIGURA CONTEMPORÂNEA: Técnicas tradicionais e Hiper-realismo” (Florianópolis | 23, 24 e 25 de Fevereiro | 2016)Uma crença bastante comum é a de que o desenho seria fruto da introspecção do artista – uma suposta “imersão às profundezas de si mesmo”. Por conta de ilusões românticas assim, são necessárias novas formulações acerca do tema. Essa abstrata “imersão” de que se fala, e mesmo esse “si mesmo”, não são na realidade elementos dados; são representações. Não há um “si mesmo”, e se houvesse, seria um esforço humano por natureza – que é nossa constante defesa psíquica contra à existência. Vladmir Safatle desenvolve de forma brilhante esse último tema. (mais…)
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RÓMULO CÉLDRAN | lápis e tinta acrílica sobre tela (122 x 192 cm, 2013) Primeira parte do conteúdo a ser ministrado na Oficina“FIGURA CONTEMPORÂNEA: Técnicas tradicionais e Hiper-realismo” (Florianópolis | 23, 24 e 25 de Fevereiro | 2016)
A expressão é o que possibilita a existência – é sua plataforma constitutiva e fundacional. Logo que expresso, passo a existir, uma vez que minha existência é “informada”, posta na fôrma da linguagem, tornando-se inteligível. Freud afirmava que o ser se “humaniza” quando nasce para a linguagem. Essa declaração, elaborada mais profundamente por Jacques Lacan, pode ser resumida do seguinte modo: o processo de humanização do ser falante se caracteriza pela inscrição no mundo dos símbolos. Lacan conceitua um elemento de auxílio no reconhecimento da relação do ser com ele mesmo e com os demais: o “Estádio do espelho”. Ao ver a totalidade de seu corpo refletida na imagem do espelho, o ser é capaz de apreender sua forma – que antes se confundia com o corpo do mundo, e diferenciar-se dele, apropriar-se, possuir a si próprio. É através desse processo de reconhecimento da imagem que se dá a constituição do “eu”; é através dele (e do olhar do outro) que a existência do sujeito se manifesta. (mais…)
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Fábio Magalhães “Trouxas II” (Alusivo ao Artur Barrio) Óleo sobre Tela (2013) “É só olhar por aí, a pintura está mais viva do que nunca…”
Fábio Magalhães
O artista baiano Fábio Magalhães, aparentemente esquecido pela academia aqui no Sul, opera uma surpreendente relação entre o “discurso” da arte contemporânea e a prática tradicional da pintura.
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O pintor que traduz por prática e julgamento dos olhos, sem raciocínio, é como o espelho onde se imitam as coisas mais opostas sem conhecimento da sua essência.
Leonardo da Vinci (Atl. 76 r.a.)
No post anterior dissemos que a única “língua” capaz de vocalizar o desenho Realista é o escalonamento de valores tonais – ou seja, os dégradés que criam coordenadas de volume no plano bidimensional do papel. Com o volume, porém, podemos criar uma terceira e também uma quarta dimensão: o tempo. (mais…)
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Eugène Delacroix dizia que o bom desenhista era aquele capaz de “desenhar um corpo caindo de um edifício, antes que chegasse ao chão”. O que queria dizer não tinha a ver com velocidade no traço ou rapidez de coordenação. Ele falava de síntese. Ou seja, o bom desenhista é capaz de captar no olhar o que há de mais “essencial” e característico da forma humana. Esse conteúdo essencial pode não passar de três ou quatro traços (vide os desenhos de Rembrandt, Boucher, Daumier, Goya e Egon Schiele, por exemplo). São poucas linhas ou “manchas” que qualificam a forma e conferem “função” a ela. (mais…)
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“Quem foi seu mestre?” Pergunta a dr. Marilice Corona num encontro com o artista. “O Youtube!” Responde Patrick Rigon, no mesmo tom de ironia.
“Até que ponto um museu hoje pode validar a obra de um artista?” Essa é uma grande questão para a arte contemporânea. Para o público, sobretudo… Os agentes da “rede” estão acostumados a encontrar na validação acadêmica ao museu a legitimação da própria obra (uma endogenia típica do meio). Sucesso de público entre nós parece chancelar apenas cinema blockbuster: não atua sobre as motivações financeiras e estéticas do sistema da arte; no Brasil é o contrário. À parte esta questão, a produção de Patrick Rigon parece conciliar ambas as coisas: sucesso de público e de crítica especializada. Nesta semana (25) Patrick Rigon expõe pela primeira vez no MARGS, após sua individual intitulada Pele Agridoce, encerrada em junho de 2015 na Galeria Península, no Centro Histórico de Porto Alegre.
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GOTTFRIED HELNWEIN | The Disasters of War 28 | Óleo e acrílica sobre tela (2011)
Na era em que a reprodutibilidade técnica sofre enorme impacto das novas tecnologias de manipulação e reprodução em tempo real da imagem, e em que as derivações da arte Conceitual possuem hegemonia nos circuitos mainstream, o que menos se esperava era o retorno das técnicas pictóricas tradicionais, com uma potência muito maior. Ou talvez se trate de uma relação causal: a saturação mesmo de uma arte asséptica e teórica (ou o esgotamento dela), suscitou uma reação oposta e visceral. Curiosamente, na década de 60 ocorre um movimento semelhante nas artes plásticas: a ascensão do Foto-realismo (ou primeiro Hiper-realismo) fora uma resposta à Arte Minimalista então em voga nos Estados Unidos.
