GUSTAVOT DIAZ

poética, corpo e experiência

  • Os artistas e a Anatomia

    Recentemente o artista italiano Nuncio Paci criou uma série de trabalhos dedicados ao Barroco, no seu estilo bem próprio onde expõe o corpo “vivisseccionado”. A Anatomia é parte essencial do repertório do artista, sendo tematizada em sua obra como um elemento estético. (mais…)

  • Como desenhar pode ser uma prática subversiva

    A cada bloqueio que sofro no Facebook (esta é a quinta vez), minha primeira sensação é de incompreensão. Depois de um mês bloqueado, é impossível não relativizar a importância desta rede social que, vista à distância é bem insignificante mesmo. Porém preciso dela para exercer minha profissão, a qual me leva de tempos em tempos a ser censurado por um algoritmo: sou artista visual e minha temática é a representação do corpo. Além disso, há 15 anos ministro oficinas de desenho da figura humana com modelo vivo: a nudez, portanto, está tão presente em meu trabalho, onde ela é de tal modo naturalizada – que o cinismo da “lógica” dos algoritmos sempre me deixa confuso.

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  • O lugar da experiência na arte

    “É no simbólico que o desejo se engatilha”. Este enunciado, que remete à psicanálise de Lacan, revela o seguinte: o mundo da linguagem é onde o desejo toma forma. Sem imagem, nossos anseios, medos e percepções não encontram recursos de auto-expressão: deixam de ser elaborados formalmente. Quer dizer que a experiência não se processa, senão por meio da “narrativa” ou registro no universo simbólico. Feito o registro, a experiência pode funcionar como moeda de troca social, pode ser compartilhada, pode se realizar enquanto experiência factual. Para o desenhista, este saber é essencial. (mais…)

  • O QUE O DESENHO ME ENSINA | Reflexões sobre a Prática do Desenho

     

    Este é o vídeo piloto da nova série onde procuramos extrair da prática desenhística saberes para além de conteúdos técnicos do Desenho. Desapego, resiliência, alteridade, criatividade e auto-análise são alguns dos elementos que investigaremos, sempre em torno das lições que aprendemos desenhando.

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  • FIGURA CONTEMPORÂNEA: A IMAGEM HOJE

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    CHUCK CLOSE | “Frank” (acrílico sobre tela), 1969

    O lugar da representação

    Uma questão que deve ser permanentemente pautada na reflexão artística contemporânea, com especial interesse à fotografia é, sem dúvida, a da representação. Quando parece estar equacionada, volta à tona na próxima Bienal ou no próximo salão do MEAM. Não basta conhecermos a desagregação do sistema de representação que teve lugar no final do século XIX, seguida de experimentações e rearticulações dos padrões normativos da arte. A questão, colocada para os artistas do último século, chega também para nós; as respostas dadas no passado devem ser transformadas em novas interrogações, pois ainda hoje apresentam sérios desafios para fotógrafos e produtores de imagens em geral. Enquanto a geração de Marcel Duchamp e dos dadaístas era asfixiada pelo ambiente academicista e respirava uma modernidade que acabava de se abrir à especulação, a geração presente encontra ambiente totalmente diverso, à luz da experiência desconstrutivista pós-moderna. Creio que todo artista deve ao menos tentar elaborar em seu trabalho pessoal qual o “lugar” que nele assume a representação. (mais…)

  • OUTRAS RELAÇÕES ENTRE FOTOGRAFIA E ARTE (Parte II)

    VIVIAN MAIER
    VIVIAN MAIER

    O esforço é grande, o homem é pequeno.
    Eu, Diogo cão, navegador deixei este padrão
    Aos pés do areal moreno, e para diante naveguei…
    FERNANDO PESSOA

    É fácil se apropriar de novos conhecimentos… Difícil é desapegar-se de velhos hábitos! Um hábito adquirido é um vício: uma repetição do caminho inicial que leva ao prazer e nos mantem na ilusória zona de conforto. O destino dos produtores de imagem, porém é justamente o da insubmissão, da rebeldia do olhar que entrevê o avesso do cotidiano e arrisca, no espaço metafórico da representação, criar o novo. (mais…)

  • DESENHO COMO “SÍNTESE” E “DESINVENÇÃO”
    De quem é o olhar
    Que espreita por meus olhos?
    Quando penso que vejo,
    Quem continua vendo
    Enquanto estou pensando?
    FERNANDO PESSOA
    “De quem é o olhar” | 1917

    Certa vez, cruzando um parque, Einstein indagou a um transeunte que passava: “Com licença, cavalheiro, poderia me dizer se eu vim da direita ou da esquerda?” O homem, intrigado, respondeu: “Ora, o senhor veio da direita…” – ao que Einstein responde: “Ah sim, então já almocei! Obrigado…” A história, tirada de uma biografia de Einstein, é verdadeira e nos informa o nível de abstração em que o físico vivia. Chama atenção também um outro detalhe: o físico que explicou as relações entre espaço e tempo era incapaz de perceber a realidade mais prosaica a sua frente. Em conexão com o poema secular de Pessoa – que questiona quem “vê por nós” enquanto pensamos – a distração desses homens de gênio expõe uma problemática que é central no Desenho: quando pensamos, não estamos vendo.

    Desver

    DIEGO FAZIO, “Informazioni” 2013 | Matita e aquarela sobre papel

    Nascemos cegos; nosso primeiro desenho não será expressão daquilo que vemos, mas sim do que imaginamos. Daí que desenhar não é ver; é desver: faz-se necessário desconstruir todo o imaginário criado por nós acerca de cada objeto do mundo. É sabido que carregamos previamente uma forma interior das coisas, muitas vezes antes mesmo de conhecê-las. Bastam os desenhos infantis: crianças do mundo inteiro representam em seus desenhos, de forma quase idêntica, árvores, planetas, estrelas, pessoas e até mesmo casas, ruas e quartos – mesmo sendo esses tão diferentes em seus contextos originais.

    Quando adulta, se uma dessas crianças decide levar o desenho a sério e se coloca diante de um modelo a fim de desenhar, nada verá senão aqueles estereótipos que aprendeu na infância,  soluções que não desaparecerão até que sejam objetivamente desconstruídas pela educação sistemática do olhar (como tudo o mais em nossa vida).

    Desinventar

    ERIN ANDERSON, 2015 | “Karen Looking”; “Heather in Hiding” (óleo sobre madeira)

    Somente depois de ter desmontado o aparato de tipificações e estereótipos é que conseguirá enxergar o modelo em sua dimensão física – como uma organização de planos em profundidade sob a luz: será capaz de desenhá-lo sob uma ótica “realista”, digamos assim. Mas então, alguma coisa acontece... Algo trava esse desenvolvimento: o objeto está ali, o desenhista é capaz de enxergá-lo, desenha todos os detalhes… porém alguma coisa não vai bem. O modelo fica sem volume, desproporcional, sem vida.

    É chegada a hora da desinvenção: é preciso ver além do que ali está – ver os elementos que, compondo o objeto, não se apresentam imediatamente em sua aparência física. É o caso da Anatomia Artística, por exemplo; das técnicas do desenho, do domínio dos materiais e especialmente de certa compreensão que permite ao desenhista “alterar a realidade a fim de que ela pareça verossímil”.

    Assim é que o desenhista não representa um amontoado de detalhes – isso quem faz é o amador. O desenhista opera uma síntese plástica das características do modelo, algo bem diferente do que apenas “copiar” aquilo que vê.

    Nesta série de vídeos em nosso canal, pretendo abordar o tema, variando a abordagem com recursos visuais:

     

    ERMILO ESPINOSA, “la Ventana” 2011 | Óleo sobre tela (140 cm x 180 cm)

     

    Parte do conteúdo teórico a ser ministrado no curso “Desenhos do Corpo” (Porto Alegre | 28 de Abril a 23 de junho | 2017) Mais informações aqui!


    imagem da capa | XOOANG CHOI, (escultura)

     

  • OUTRAS RELAÇÕES ENTRE FOTOGRAFIA E ARTE

    ANA TERESA FERNANDÉZ,
    ANA TERESA FERNANDÉZ, “Erasure” | 2016, óleo sobre tela, (182.9 X 248.9 CM)

    “O século XIX, como sabemos, é amplamente uma invenção de Balzac. (…) Estamos simplesmente continuando, com notas de rodapé e adições desnecessárias, o capricho, a fantasia ou a visão criativa de um grande romancista. (…) o que vemos, e como nós o vemos, depende das Artes que nos influenciaram”.

    OSCAR WILDE
    A Decadência da Mentira (1889)

    No século XIX, a literatura era o “instantâneo” capaz de codificar com clareza a realidade social. Hoje,  a fotografia revela de maneira privilegiada como nossa interlocução com o mundo acontece. O fenômeno selfie, p ex. é um indício que coloca a fotografia no centro da visualidade, indicando uma nova forma, muito particular, com que dialogamos com o mundo presente. Assim também a forte incidência de um realismo fotográfico em diversos campos da imagem – jogos, séries, publicidade e nas próprias Artes Visuais, coloca a fotografia num lugar de destaque na construção da experiência estética contemporânea.

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