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Desenho como “síntese” e “desinvenção”

DIEGO FAZIO, “Informazioni” 2013 |
Matita e aquarela sobre papel

De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
FERNANDO PESSOA
“De quem é o olhar” | 1917

Certa vez, quando Einstein atravessava um parque, indagou a um transeunte que passava: “Com licença, cavalheiro, poderia me dizer se eu vim da direita ou da esquerda?” O homem, intrigado, respondeu: “Ora, o senhor veio da direita…” – ao que Einstein responde: “Ah sim, então já almocei! Obrigado…” A história, tirada de uma biografia de Einstein, é verdadeira e deve dar conta do nível de abstração em que vivia; mas chama atenção também para um detalhe: o físico que explicou as relações entre espaço e tempo era incapaz de perceber a realidade mais prosaica a sua frente. Em conexão com o poema secular de Pessoa – que questiona quem “vê por nós” enquanto pensamos – a distração desses homens de gênio expõe uma problemática central do desenho: quando pensamos, não estamos vendo.

“DESVER”

Nascemos cegos; nosso primeiro desenho não será expressão daquilo que vemos, mas sim do que imaginamos. Daí que desenhar não é ver; é desver: faz-se necessário desconstruir todo o imaginário criado por nós acerca de cada objeto do mundo. É sabido que carregamos previamente uma forma interior das coisas, muitas vezes antes mesmo de conhecê-las. Bastam os desenhos infantis: crianças do mundo inteiro representam em seus desenhos, de forma quase idêntica, árvores, planetas, estrelas, pessoas e até mesmo casas, ruas e quartos – mesmo sendo esses tão diferentes em seus contextos originais.

Quando adulta, se uma dessas crianças decide levar o desenho a sério e se coloca diante de um modelo a fim de desenhar, nada verá senão aqueles estereótipos que aprendeu na infância,  soluções que não desaparecerão até que sejam objetivamente desconstruídas pela educação sistemática do olhar (como tudo o mais em nossa vida).

ERIN ANDERSON, 2015 | “Karen Looking”; “Heather in Hiding” (óleo sobre madeira)

“DESINVENTAR”

Somente depois de ter desmontado o aparato de tipificações e estereótipos é que conseguirá enxergar o modelo em sua dimensão física – como uma organização de planos em profundidade sob a luz: será capaz de desenhá-lo sob uma ótica “realista”, digamos assim. Mas então, alguma coisa acontece... Algo trava esse desenvolvimento: o objeto está ali, o desenhista é capaz de enxergá-lo, desenha todos os detalhes… porém alguma coisa não vai bem. O modelo fica sem volume, desproporcional, sem vida.

É chegada a hora da desinvenção: é preciso ver além do que ali está – ver os elementos que, compondo o objeto, não se apresentam imediatamente em sua aparência física. É o caso da Anatomia Artística, por exemplo; das técnicas do desenho, do domínio dos materiais e especialmente de certa compreensão que permite ao desenhista “alterar a realidade a fim de que ela pareça verossímil”.

Assim é que o desenhista não representa um amontoado de detalhes – isso quem faz é o amador. O desenhista opera uma síntese plástica das características do modelo, algo bem diferente do que apenas “copiar” aquilo que vê.

ERMILO ESPINOSA, “la Ventana” 2011 | Óleo sobre tela (140 cm x 180 cm)

Parte do conteúdo teórico a ser ministrado no curso “Desenhos do Corpo” (Porto Alegre | 28 de Abril a 23 de junho | 2017) Mais informações aqui!

imagem da capa | XOOANG CHOI, “Reflection” (escultura)

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