Ante o acúmulo de imagens que nos atravessa, o olhar pode tanto neutralizar-se para a estesia das formas quanto, em oposição, qualificar a interpretação do mundo imagético. Ou seja, pode tender para a banalização ou para enriquecer-se ante o cenário da contemporaneidade, fortemente mediado pela imagem. O que nos cerca é alheio, até que passe a significar e seja apropriado pela intimidade de nossa língua pessoal.

Hoje, num mundo de imagens, perdemos a dimensão estética. Entre a saturação (e consequente vulgarização da imagem) e a automatização onde as coisas são convertidas em sua instância estritamente funcional – todo esforço de dar sentido é insuficiente: as coisas acabam sempre tendo seu significado tragado pelo buraco negro da invisibilidade.

IGOR DOBROWOLSKI "Real God" (Left top  inscription) ”How you want to refuse god”, 2018 | óleo sobre plywood
IGOR DOBROWOLSKI “Real God” (Left top inscription) ”How you want to refuse god”, 2018 | óleo sobre plywood

O fato é que, à custa de sua implicante reaparição, as imagens se tornaram óbvias demais. Como já definimos em outro artigo, óbvio é aquilo que já “não pode mais ser visto”. Em paralelo à noção freudiana de “estranho” – é aquilo que se torna tão familiar e próximo que deixa de ser percebido e alheia-se de nós.

O Brasil tem um déficit assustador quanto à escrita e interpretação textual[1]. As ações do atual governo federal aprofundam ainda mais o sentido mecanicista da produção social, convertendo a educação em aparelho ideológico do Estado. Mas é urgente dedicar esforços também à qualificação de nossa interpretação imagética – afinal, as inferências conceituais da ideologia se apropriam de ambas com igual intensidade. Se uma imagem “vale mais que mil palavras”, deve então ser analisada com um rigor e profundidade.

Mais do que nunca, é preciso decifrar a construção argumentativa no interior das imagens e repensar uma “ética da visualidade”.

O modo de funcionamento dos argumentos na palavra escrita há muito possui crítica, epistemologia e método. Mas, em um mundo mediado pela imagem, é preciso também ferramentas de filtragem visual para o reconhecimento pleno das notícias da mídia, posts, artigos, twits, memes, gifs, vídeos, etc.

Um bom exemplo de ilustração desta abordagem é a hipótese de dois médicos brasileiros publicada no livro A Arte Secreta de Michelangelo (ARX, 2004), que coloca em questão o que há 500 anos vem se falando sobre a obra deste que é um dos artistas com maior fortuna crítica da história. Segundo os autores, Michelangelo oculta estruturas anatômicas em todas as figuras da Capela – cujas silhuetas, disfarçadas sob o contorno das túnicas e poses dos personagens, transformam o afresco em uma enorme lição de Anatomia. Para nós, a descoberta é de fundamental importância, uma vez que põe à prova a compatibilidade entre visão X olhar. A revelação de um vocabulário subliminar inédito em um dos repertórios imagéticos mais famosos do mundo ilustra como a observação é negligenciada. Sob o agenciamento da textualidade, a imagem demanda uma gramática visual própria – que vimos chamando de Epistemologia do artesanal – tema tratado em diversos artigos, e cujo objetivo é qualificar a leitura de imagem, reconhecendo nela a argumentação que se dá mediante a narratividade implicada na operação desenhística.

Desenho e contemporaneidade

Só podemos nos enganchar num período através de uma determinada articulação do olhar – o que a imagem enquanto “experiência visual” possibilita. A criação de experiências implica narratividade, inscrição de uma vivência no registro linguístico. Tal operação é propiciada no Desenho (aqui tomado no sentido geral de “imagem”) por meio da perspectiva que, ao manipular tempos no espaço pictórico, permite a constituição de um “discurso” – elemento que é fundamento mesmo da representação visual.

ANA TERESA FERNANDEZ, "Erasure performance documentation", 2016 | óleo sobre tela (182.9 X 248.9 cm)
ANA TERESA FERNANDEZ, “Erasure performance documentation”, 2016 | óleo sobre tela (182.9 X 248.9 cm)

No contexto da mediação contemporânea pela imagem, a informação é largamente popularizada (Google, Wiki’s, etc), contudo, aparentemente a manipulação midiática a partir dos dispositivos de imagem nunca foi tão eficiente – nem tão ineficiente nossa leitura discricionária da constituição narrativo-visual das ideias. Mais do que nunca, é preciso compreender o núcleo constitutivo da imagem, sua natureza ficcional, discursiva, política; ou seja, a construção de seus argumentos.

No contexto do Desenho[2] como experiência, é importante avaliar que tipo de experiência estamos conseguindo mediar através da expressão visual. Em que pese a abundância de mídias e dispositivos geradores de imagem, estamos nos comunicando melhor visualmente? Sabemos que os profissionais historicamente designados para esta função – artistas, designers, arquitetos, substituíram o desenho por novas tecnologias e categorias artísticas. Estarão elas dando conta de representar nossas vivências particulares? Expressam com sucesso nossas experiências no terreno de uma linguagem comum? Talvez não seja por acaso o fenômeno da “pós-verdade”; sem o domínio dos processos operacionais da imagem, talvez estejamos mais pobres.  

CLARA LIEI | carvão sobre papel sulfurisê
CLARA LIEI | carvão sobre papel sulfurisê

É inconcebível um Desenho “mudo”, sem especificidade. Quando se desenha, desenha-se “algo”. Ainda que o desenhista não se importe com o tema que aborda (coisa bastante estranha), estará dizendo alguma coisa, e será responsável por isso. Podemos mesmo dizer que o valor de uma obra é proporcional ao dizer: quanto mais potente seu discurso, maior eficácia simbólica terá. Tal domínio da operação formal em termos conceituais – tanto para quem produz imagens quanto para o público, garante que se possa dar consequência visual a suas visões de mundo e encontrar interlocução. Do contrário, nenhum dos dois se expressa.

O desenho é um olhar. Por isso a própria experiência do mundo contemporâneo perpassa o Desenho – aqui sempre entendido como articulador entre experiências visuais, ou seja, uma articulação que se dá no olhar. O olhar altera o passado quando muda nossa posição enquanto observadores, uma vez que o tempo não está “fora” do olhar, mas dentro dele. O afresco da Capela Sistina continua no Vaticano desde 1512; mas uma articulação do olhar que ressignifica seu vocabulário revela um viés que somente o nosso tempo foi capaz de encontrar; um viés que enlaça Michelangelo a um tempo específico, o nosso tempo.

Assim, é um laço subjetivo o que engancha o sujeito a um tempo histórico específico. Uma subjetividade irredutível ao consumo de imagens e representações contemporâneas transforma o presente em passado: a subjetividade intolerante a outras formas de sexualidade, por exemplo, liga o sujeito a um tempo pré-moderno. Nosso olhar nos coloca (e nos tira) no tempo.

Desenho e argumento

Um dos aspectos mais interessantes da Figuração Contemporânea é a dimensão narrativa do Desenho. Tendo sua enunciação na perspectiva de Brunelleschi (séc. XIV), tal dimensão na representação atual recebe outro sentido, onde passa do argumento (conforme a retórica clássica) para a premissa. A imagem é uma opinião, uma interpretação parcial e absolutamente pessoal do mundo. No máximo, ela pode consistir num “argumento não dedutivo” (aquele onde não há implicação necessária entre as premissas), não havendo leis de Álgebra proposicional que endossem o conteúdo de qualquer imagem na Figuração Contemporânea.

ADAM HALL | óleo sobre tela
ADAM HALL | óleo sobre tela

A narratividade da imagem contemporânea sintomatiza outra condição de verdade, outro sujeito, radicalmente diferente do sujeito centrado da modernidade. De uma técnica, o Desenho passa a ser estratégia do dizer, uma intervenção, um dispositivo dialógico que opera interlocução entre o desenhista e o mundo. Por isso, para entender essa nova figuração, propomos outra epistemologia com o recurso da Psicanálise e das Ciências Sociais. Outros desenvolvimentos, no texto “O Desenho como Experiência Visual” e demais artigos do site.

 


Resumo da palestra que será ministrada no Atelier Livre em Porto Alegre, dia 30 de Maio de 2019, a convite do PROPEL do Instituto Federal de Educação do RS. Entrada franca! Mais informações aqui! (PRORROGADA POR CONTA DA MANIFESTAÇÃO #30M!)

Atelier Livre Propel Palestra

PRORROGADO

[1]  O índice do INAF constatou que apenas 37% dos brasileiros pertencem à categoria “intermediária (25%) ou proficiente (12%), que indicam sujeitos capazes de “elaborar sínteses de textos diversos (jornalísticos e científicos), trabalhar com porcentagens, opinar sobre o estilo do autor ao ler algum texto”. Em 2018, a pesquisa indica que 30% dos brasileiros entre 15 e 64 anos eram analfabetos funcionais. Fonte: https://www.todospelaeducacao.org.br/conteudo/inaf-3-em-cada-10-brasileiros-nao-conseguiriam-entender-este-texto
[2]  Novamente aqui no sentido de “imagem”.

 

imagem da capa | ANNIE MURPHY-ROBINSON “Dragonfly Eyes”, carvão sobre papel

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