[PROCESSOS POÉTICOS 2ª edição] QUARTA AULA | Poéticas da Figuração Contemporânea

O terceiro encontro do Processos Poéticos foi dedicado à apresentação das propostas de trabalho pelos integrantes dessa edição do curso, que a partir de agora receberão orientação individual durante a execução, até o último encontro (quando os trabalhos serão apresentados coletivamente à turma). Neste quarto encontro estudaremos o cenário contemporâneo da figuração artística.  

BEN HOWE, “Alignment”, 2020 | óleo sobre tela, (39.5″ X 66″) 

 Em nossa busca por uma enunciação do fenômeno criativo (do qual a “experiência visual” é elemento central) vimos como a perspectiva instituiu propriamente a experiência na arte, ao introduzir o artista enquanto sujeito. Hoje faremos uma breve análise de seu (des)aparecimento nas últimas décadas a fim de compreender a Figuração Contemporânea (FC), que se situa precisamente neste contexto. Já adiantamos o argumento: a FC não é representacional; faz parte de uma chave pós-moderna, onde a produção de experiências não passa pela simulação figurada da obra como “janela para o mundo”; é, antes disso, continuidade das operações de linguagem que tiveram inicio no final do XIX com o advento do Modernismo, a partir do que a produção visual passou a ser entendida, sobretudo como operações de linguagem. Esta esfera de produção dá voz – por meio de edições muito particulares da gramática da visualidade, a afetos que não encontram lugar nas manifestações da arte tradicional dita “clássica” – e cria, desta forma (novas) experiências autônomas ao mundo “fora da imagem”, permitindo lugares de subjetivação sine qua non.  

Tensões da imagem

O enunciado da narrativa, não por acaso, coincide com a estrutura da operação desenhística: a “retórica das imagens” é precisamente composta da síntese de coordenadas simbólicas da experiência. E onde está a narrativa (o discurso), está a política.

O verbo narrar deriva de gnarus – “aquele que sabe”, e se refere ao saber oriundo da vivência de uma experiência; a qual, por sua vez se dá no tempo: é necessário o comparecimento de tempos verbais para que proceda. Ora, o que permite a conjugação do tempo na visualidade é a perspectiva, que dispõe (em razão dos planos de profundidade) o lastreamento temporal: uma cena acontece agora em primeiro plano, enquanto outra sucede no segundo, e assim por diante. Por fim, o encadeamento de eventos – de acontecimentos conhecidos e expressos se chama narrativa: estratégia de orientação de modos de ser e pensar. Em resumo, ideologia.

Vimos em outro momento como a imagem é campo de tensões e paradoxos – sendo um deles, talvez o mais representativo, aquele entre linha X cor. Os vídeos da empresa ENCHROMA – especializada em óculos para daltônicos que não enxergam cores (ou as enxergam muito pouco e de forma distorcida), que viralizaram na web permitem perceber esse entrelaçamento:

O mesmo ocorre com o implante coclear em surdos. Inúmeros vídeos similares redundam invariavelmente no choro do presenteado, certamente porque um sentido novo lhe é dado, ou subitamente restituído – excedendo, assim o apreensível (é impossível de ser formulado; expressões da palavra não bastam). A cor é essencialmente subjetiva, pessoal e emocional: ou seja, patológica. Cria experiências, mas não dá sentido à elas. Assim é que o conceito de “narrativa” anteriormente citado se explica: o desenho (linha) é o encadeamento inteligível que vincula vivências a um único sentido (narrativo), convertendo-se em sinal para as experiências. Enquanto a cor gera sensações sem história; o desenho dá história às sensações.  

Tal é o procedimento com que o desenho interpõe no mundo o sujeito “histórico” – cuja visão de mundo (bem como a visão de seus mecenas), encontra assim um dispositivo por onde se expressar. Na Arte Moderna (digamos, pós-Cézanne), também o corpo veio a intervir nos processos comunicacionais, interagindo efetivamente como suporte sócio-histórico – não mais o sujeito do Cogito que habitava uma esfera para além da corporeidade.

NICOLAS SAMORI | óleo

É justo lembrar que o corpo está presente na arte não apenas na performance, na video art e em demais categorias pós-modernas de expressão. Na Figuração Contemporânea, ele volta a ter prevalência, atuando ora como instrumento, ora como tema, mas principalmente como vetor da expressão. Antes de passarmos a isto e mostrar a reunião de produções e artistas representativos desse contexto na contemporaneidade, apresentaremos a tese chamada “A CIA na Guerra Fria da Cultura”, da historiadora inglesa Frances Stonor Saunders. Vide maior desenvolvimento na aula gravada do curso [CURSO 2ª ed] Processos Poéticos | ENCONTRO 04 (parte I) em nosso canal Youtube (6 de set. de 2021).

Para nosso propósito no momento, bastará lembrar que o Expressionismo Abstrato parte de uma falsa premissa: a de que a linguagem formal é um campo inequívoco da comunicação. Ao reivindicar um campo autônomo de expressão “livre”, “imediata”, do mesmo modo pressupõe que o campo da figuração é um espaço horizontal, simétrico, onde a mensagem enunciada coincide exatamente com aquela recebida mediante padrões convencionados de uma linguagem comum. O Expressionismo apresentava-se assim como a “verdadeira arte”, pois seria expressão mais natural da subjetividade do artista.

GEORGIS RORRIS, “Self portrait in a broken mirror” |.Vinyl paint sobre tela (130 x 110 cm).

O passo inevitável a dar é precisamente dentro do campo político: uma expressão presa do subjetivismo só pode manter-se à custa de um distanciamento total da realidade social. Ela promove, no plano político, a mesma alienação que supõe no campo plástico-poético. Aqui é ainda necessário dizer que o outro lado – no caso, o Muralismo mexicano e o Realismo russo combatidos pelos expressionistas da CIA (vide a tese citada), desse lado o mesmo resultado é obtido, porém a partir de uma operação precisamente oposta: enquanto a cor exige interação presencial, logo efêmera; a linha do desenho, em oposição, é de natureza conceitual (portanto, estável) e permite capturar-se pelo discurso político de forma positiva e assumida. Esse é um eixo de tensões que sustentava a Guerra Fria no plano estético.

A respeito da Figuração Contemporânea que elaboramos longamente durante este encontro do Processos Poéticos, já escrevemos bastante acerca do tema (consulte aqui). Adicionaremos apenas algumas das referências imagéticas com um resumo das imagens e artistas exibidas no encontro:

ARTISTAS DA FIGURAÇÃO CONTEMPORÂNEA 

CATALOGO DE ARTISTAS REALISTAS CONTEMPORÂNEOS 

GRZEGORZ GWIAZDA | escultura

IMAGEM DA CAPA

.

.

.

.

.

..

Publicado por Gustavot Diaz

Artista visual e poeta, co-fundador do espaço artístico MÍMESIS | Conexões Artísticas em Curitiba, e ministrante de Oficinas de Anatomia Artística e Desenho o Corpo Humano com Modelo Vivo em Porto Alegre (RS), onde reside e trabalha.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: