[PROCESSOS POÉTICOS] SÉTIMA AULA | MODERNO/PÓS/MODERNO: NOS LIMITES DA ARTE

Este é o último conteúdo teórico do Curso PROCESSOS POÉTICOS, que encerra dia 28/06 com apresentação dos trabalhos práticos desenvolvidos pelos participantes. Reservas para segunda edição (prevista para Agosto de 2021) através do contato no site!

LENNART NILSON, 1965 (primeira fotografia da vida intrauterina de um feto)

A década de 1960 relativizou a dimensão humana em todos os sentidos – talvez tanto quanto o heliocentrismo (teoria que Copérnico publicou em 1543, mais tarde ratificada por Galileu), que retirou a Terra de sua imutabilidade e a fez girar em torno de um sol fixo, junto a bilhões de outros astros. Nos anos 60, viu-se pela primeira vez, as fotos da Terra tiradas pelos astronautas da Apolo 11 (capa do artigo); e também as fotos da vida intrauterina, capturadas por Lennart Nilsson.

Pós e contas

O pós-modernismo não é propriamente um estilo da arte. Uma vez que não pressupõe na arte um “fundamento essencial”, como faziam os manifestos vanguardistas, este espaço privilegiado de desestabilização da identidade do sujeito (que explica grande parte da chamada Arte contemporânea) é antes o efeito inevitável de uma desagregação – fundamental para se compreender e, portanto, para se produzir arte hoje. O pós-modernismo traz uma interessante crítica ao mundo Moderno; à modernidade como um todo, especialmente à ilusão do “progresso” – palavra chave que encarna a ideologia advinda no Cogito.

Tal crítica da racionalidade universal e da verdade objetiva confundiu a direita, e também parte da esquerda – que a considerou como uma crítica à própria razão. Nessa época, a concepção de razão emancipatória da Escola de Frankfurt ainda ecoava, e Nietzsche já havia operado (um século antes) uma forte crítica à uma razão soberana da História e do desejo ingênuo de igualdade universal entre os seres. Mas ainda assim havia razão para confusões: no plano econômico, o pós-modernismo significou a reinvenção do capitalismo, que à época procurava meios de superar a crise do “bem estar social”. Diante da constatação de que o sistema de consumo não apresenta crescimento exponencial infinito (como então se apregoava), e justificadas pela crise do petróleo de 1973, as duas maiores potências de então, EUA e Inglaterra, substituíram o keynesianismo (Welfare state) pelo neoliberalismo –caracterizado por uma dinâmica de acumulação altamente segregadora, nichos de mercado, privatizações e um completo desmonte do Estado. Elaborado por teóricos da Escola Austríaca, como Ludwig von Mises, e da Escola de Chicago, como Milton Friedman – o novo sistema encontrou em Ronald Reagan e Margaret Thatcher seus agentes mais dedicados.

Mas o capitalismo não supera verdadeiramente as suas crises; o  Capitalismo é a crise. É a gerência da crise permanente que ele mesmo produz.

Os problemas do Welfare state foram substituídos pelos problemas do neoliberalismo, transformando o Estado em organização criminal e instância burocrática (como diria Marx, “balcão de negócios da burguesia”). Na questão de costumes, o pós-moderno se expressa na forma das micro-políticas (representadas hoje no tão conhecido “politicamente correto”). Outro conflito nas fileiras progressistas: o aparecimento das agendas ditas “identitárias”. Setores mais tradicionais da esquerda defendem que a luta contra a opressão se reduz a uma única luta entre classes, a qual deve ser coletiva e unitária, podendo as pautas do identitarismo retirar o foco de uma reivindicação transversal a todas as lutas, a saber, a contradição capital X trabalho. Em resumo, parte da esquerda julga que a luta política estaria de certa forma “pulverizada” quando orientada às lutas por representatividade (como o racismo, o feminismo, as reivindicações LGBTQIA+, etc). Vladmir Safatle – que defende as tais lutas como fundamentais, dado que concernem ao que há de mais profundo nos sujeitos, àquilo que podem fazer de seu corpo e, por isso aquilo de que depende sua liberdade, expõe melhor a questão, apontando a problemática do próprio conceito:

Muitos utilizam “identidade” para desqualificar lutas que questionam  práticas seculares de exclusão naturalizadas sob as vestes de discursos universalistas. Assim, na perspectiva desses críticos, as lutas ligadas a  movimentos feministas, negros, LGBT+ seriam em larga medida “identitárias” porque visariam, na verdade, criar uma nova geografia estanque de lugares de poder. Lugares esses indexados por identidades específicas.

VLADMIR SAFATLE

Na arquitetura, os marcos do pós-modernismo são muito evidentes. A demolição do conjunto habitacional Pruit-Igoe em St. Louis (EUA) em 1972 é dada como o fim do Modernismo (Charles Jencks, The Language of Post-Modern Architecture). Uma versão bastante disseminada dessa “estética” expressou-se na forma mesmo de uma “arquitetura corporativa”, narcísica e kitsch (a Las Vegas dos anos 70, os edifícios comerciais espelhados, Ecovilles, shoppings, os “não-lugares” globais, etc.) que punha o sujeito exposto ao puro consumo. Aqui nos interessarão apenas os impactos que a crítica endereçada ao questionamento da verdade metafísica mediante a descrença em relação às verdades absolutas trará para a arte pós-70 e para a Arte Contemporânea. O primeiro filósofo a utilizar o termo no contexto dos estudos sociais foi Jean-François Lyotard, que explica: “Simplificando ao extremo, defino o pós-modernismo como a incredulidade quanto à metanarrativas”.

JOHN ROBINSON, “The Triumph of Death (for Phil Robinson)”, 2021 | óleo sobre tela (160 x 200 cm)

Na década de 60, a corrente forte do pensamento – o Estruturalismo, baseava seu interesse não nos fenômenos culturais em si, mas na análise da gramática discursiva subjacente. Isto é, o que era prevalente era uma linguagem que falasse por si e sobre si mesma. O problema da lógica estruturalista é que ela ainda ecoava a concepção moderna de “indivíduo” – quer dizer, o sujeito era consequência determinada de estruturas sistêmicas, assim como as palavras sob o enquadre de uma língua. Claude Levi-Strauss, um de seus principais pensadores, reconhecia as formas de organização social como estruturas míticas, sincrônicas: não é o sujeito quem narra sua história e seus mitos, mas eles que o sobre-determinam (para usar a célebre formulação de Lévi-Strauss: os símbolos são mais reais que aquilo que simbolizam; o significante precede e determina o significado).

Influenciado em especial pela crítica de Jacques Derrida, o Estruturalismo do período em questão passa a ser “desconstruído” junto com as metanarrativas históricas. Disso resultou (de maneira não uniforme) uma arte sem estruturas fixas de produção e interpretação, mais flexíveis à análise subjetiva do espectador – uma vez que os signos passaram a ser compreendidos não mais dentro de uma lógica discursiva única, global e estável, mas deslizantes no interior da própria linguagem. Esse movimento desconstrutivista derridiano inaugura o chamado pós-estruturalismo, que se confunde com o kunstwollen Pós-moderno.

O período Pós-moderno que se inaugura a partir de 1970 é marcado por um ceticismo em relação à construção de uma metalinguagem abrangente, tendo em vista que os signos da própria metalinguagem também se encontram, eles mesmos, sujeitos ao deslizamento e à indeterminação, uma vez que os signos, instáveis como são, movem-se incessantemente em uma proliferação de alusões que transitam, de texto a texto, em um movimento de espiral

ROBERT STAM, 2006, p. 203

Por isso, elementos tradicionais passaram a mesclar-se com elementos e formas contemporâneas, numa confluência de teorias e estilos da qual derivavam produções heterogêneas, sem significados fixos ou regras estruturantes. A narrativa histórica linear perdia assim parte de seu sentido – o que justificaria a decretação por Artur Danto e Hans Belting do “fim da arte” e “fim da História da arte”. Esse ponto é de especial interesse no tocante à figuração e às artesanias – já questionadas desde o início do século, e que se relativizaram no interior da arte até chegar à completa abstração no período (talvez uma resposta tardia a esse processo seja a “escultura imaterial” produzida recentemente por Salvatore Garau).

Vamos contextualizar o tema nas artes visuais: genericamente, uma imagem é composta de signos – códigos da linguagem visual (ponto, linha, plano e cor); as diferentes articulações desses códigos geraram diferentes estilos, quer dizer, as formas de abordagem do Cubismo, do Suprematismo, etc. O padrão, a regularidade nos procedimentos relacionais da forma compunha uma norma. Na arte do último século, a figuração foi sendo elidida em nome dos procedimentos relacionais da própria linguagem. O pós-modernismo é o limite máximo de esgarçamento dos padrões normativos da forma, iniciado na virada do século XIX para o XX, quando a categoria “pintura” é concebida de modo autônoma – ou seja, enquanto forma e linguagem pelos realistas e logo depois autonomizada no pós impressionismo.

TILL RABUS (óleo sobre tela)

A crítica à crítica pós-moderna

Na esfera política, temos autores de peso tratando de estabelecer uma importante análise crítica dessas transformações. Para citar algumas referências – David Harvey escreve Condição Pós-moderna, onde explica a diferença do fordismo para acumulação flexível característica do capitalismo neoliberal; Fredric Jameson se debruça sobre os operações no campo da cultura em A Lógica cultural do capitalismo tardio (denominação que, para ele é sinônimo de neoliberalismo); ainda um terceiro teórico marxista de peso irá apresentar uma visão crítica do pós-modernismo: Eric Hobsbawn, que o denomina de “Era do desmoronamento”, definida pelo resgate do liberalismo e reconstrução interna do sistema do capital após o colapso do wellfare state.

De parte da direita conservadora, o pós-modernismo também recebe críticas, curiosamente num sentido muito semelhante, porém com sentido inverso. Os pós-modernos “rejeitam completamente a estrutura da civilização ocidental” – nas palavras de Jordan Peterson, guru da direita conservadora estadunidense. Pela visão da esquerda, o relativismo cultural do multiculturalismo e a ausência de uma “teleologia” impediriam um processo revolucionário global que transformasse também a “estrutura da civilização”. A diferença entre essas críticas – fundamental para se entender o pós-modernismo, é que o discurso conservador pressupõe uma “essência” civilizacional, além de postular pela manutenção de uma estrutura cujas desigualdades sociais são efeito colateral (portanto, deve ser conservada, apenas com eventuais ajustes). Assim, as forças conservadoras e reacionárias condenam qualquer forma de luta, mas contraditoriamente sobrevivem da criação de inimigos ao defender a ordem social como se esta fosse imutável, absolutista, e transformando aqueles que a questionam em “agentes do mal”. Já a esquerda percebe as desigualdades não como efeito, mas condição do próprio sistema: a estrutura deve ser transformada, seja pela tomada e democratização do Estado (socialistas), seja pela destruição do Estado (anarquistas). Enfim, para tanto é necessário haver uma estrutura a se transformar. O caso é justamente que o pós-modernismo defende a ausência e não-legitimidade das estruturas meta-narrativas.

JOSEPH KOSUTH , One and three chairs, 1965 | Cadeira dobrável de madeira, fotografia montada de uma cadeira e ampliação fotográfica montada da definição do dicionário de “cadeira”, Cadeira 82 x 37,8 x 53 cm, painel fotográfico 91,5 x 61,1 cm, painel de texto 61 x 76,2 cm.

De fato, para pensamento pós-moderno não há uma razão unívoca, nem transcendente; porém micro-relações de poder (cujas raízes têm estruturas complexas, ou sequer são enraizadas), além de uma total diluição dos discursos: ante o desaparecimento do indivíduo moderno – racional e produtor de identificações, o que sobra é assumir que aquilo que conhecemos por sujeito, afinal é um efeito de identificações, sendo melhor definido por uma falta de estrutura do que por uma unidade estruturada, conforme vimos no tema anterior.

Tal condição, contudo, confere à arte uma autoconsciência que a condena a encenar o próprio fracasso; fracasso expresso no cinismo de uma crítica que celebra os limites da linguagem e a morte da própria arte.

A arte nunca é um relato factual; ela é apenas uma versão.  Sua própria existência histórica – quando a experiência do artista na Renascença pode afirmá-lo (por meio da criação da perspectiva) possuidor de uma visão do mundo subjetiva, consolidou o fato de que uma única verdade, até então ditada pela igreja, não era mais possível. Quando Leonardo assina pela primeira vez uma obra, assumindo autoria, apresentava a possibilidade de uma versão individual do mundo, autônoma e independente do dogma católico de então. Ali nascia também a prerrogativa do múltiplo, que a arte em si mesma encarna. Nascia também a “Era da Arte” (Arthur Danto) que um dia chegaria ao fim.


Este texto é parte do conteúdo teórico do CURSO Processos Poéticos – cuja primeira edição acontece em Maio e Junho de 2021. Inscrições para a segunda edição podem ser feitas pelo email gustaveaux@gmail.com.


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Publicado por Gustavot Diaz

Artista visual e poeta, co-fundador do espaço artístico MÍMESIS | Conexões Artísticas em Curitiba, e ministrante de Oficinas de Anatomia Artística e Desenho o Corpo Humano com Modelo Vivo em Porto Alegre (RS), onde reside e trabalha.

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