[PROCESSOS POÉTICOS] PRIMEIRA AULA | Desinvenção da visão: POÉTICAS (Parte 01)

Neste primeiro encontro do [CURSO] Processos Poéticos, trataremos da conceituação da “poética”, relacionando as obras de Aristóteles e de Paul Valéry a fim de introduzir a concepção de Desenho como articulador de experiências.

HAMID YARAGHHI, “Spring in Spring”
2017 | óleo sobre tela (190 x 230 cm)

De início, uma diferenciação importante: o significado hoje do termo “Poética” – no Brasil especialmente difundido pelas tantas pós-graduações e linhas de pesquisas em Poéticas Visuais – em nada coincide com a famosa Poética de Aristóteles. Curiosamente, ambas têm um sentido quase que diametralmente oposto: enquanto este último preconiza que o elemento central da poesia é a mímesis (ou seja, a poesia teria pouco a ver com versificação ou sua forma em geral, e sim com a “representação”), a Poética criada por Paul Valéry se vale da acepção primitiva de poien:

O nome POÉTICA nos parece conveniente (…) como nome de tudo o que se relaciona com a criação, ou com a composição de obras em que  linguagem é ao mesmo tempo substância e meio – e não com o sentido restrito de recolha de regras ou de preceitos estéticos relacionados à poesia.

PAUL VALÉRY, Lições de Poética, p. 16

Esse reparo ao final da frase é a única expressão de Valéry em suas “Lições de Poética” no Collège de France em que se refere à obra de Aristóteles, mesmo sem citar o nome do filósofo. Mais adiante irá reforçar a diferença, denunciando certo “envelhecimento” do uso tradicional do termo, limitado então à “ideia de prescrições incômodas e ultrapassadas”.

E é precisamente por meio dessa oposição à tradição que Valéry apresentará sua Poética (transformada em disciplina em 1837). O escritor denuncia o “rigor da regra” – na época, entronizado como princípio definidor e regulador tanto do fazer artístico, quanto da análise crítica nas artes. O receituário fixo de regras, segundo Valéry, “obteve favor grande e durável graças à extrema facilidade que proporionava no julgamento e na classificação das obras, por uma simples referência a um código ou a um cânone bem definido.” (Idem p. 22 e ss).

WANG XIAOBO, “Inverted woman”, 2010 | óleo sobre tela (172 x 166 cm)

Em outras palavras, o julgamento sobre a arte se tornara o julgamento sobre a adequação da arte às regras acadêmicas. Valéry também observa que a adequação canônica ao academicismo reinante – em que pese ser bastante árdua dado o alto grau de exigência técnica, representava também aos artistas certa facilidade: “Condições muito estritas, e até mesmo muito severas, dispensam o artista de várias decisões extremamente delicadas e retiram dele várias responsabilidades em matéria de forma”.

A crítica a tal normatização antecipou (e contribuiu para) a inversão radical no sentido da própria “expressão” que iria se consolidar a partir da segunda metade do XIX. Se até então “expressar-se bem” significava ater-se aos limites de uma linguagem e dominar seus procedimentos; agora a qualidade expressiva passava a ser avaliada pelo contrário – ou seja, pelo quanto o artista era capaz de esgarçar a gramática dos padrões normativos, de modo a alcançar novos valores estéticos. A vitalidade (como se vê nas vanguardas modernistas) não estava em ater-se à circunscrição de uma sintaxe: mas justamente em seu rompimento.

E se Valéry denuncia a padronização como norma, também critica a ideia de “talento” como pressuposto da qualidade artística. Em sua visão, a criação poética era “resultado de um processo de construção” que dependia de “estudo, reflexão, disciplina e dedicação” (CORTÉS, 2016)

Em resumo, a intenção de Valéry é transformar o fazer artístico (poien) num “ato do intelecto” – dando autonomia ao artista e aos procedimentos de criação frente ao receituário acadêmico em vigor. Tal intenção teve vastas implicações…

NICK ALM, “Hall 2”, 2020 | óleo sobre tela

UM RETORNO À ARISTÓTELES…

Para além da distinção entre as Poéticas – a de Aristóteles é de fundamental importância à compreensão do fazer artístico. Considerado por Marx como o maior pensador da antiguidade, Aristóteles dedica uma obra (da qual nos chegou um pequeno fragmento) ao estudo da conceituação das formas artísticas, direcionada aos alunos de seu Liceu – primeiro centro de pesquisa científica aplicada. Conhecido como Poética, este livro é uma sistematização de critérios à produção artística – em especial à poesia e à tragédia, sendo o mais influente manual de produção poética em geral (é bom lembrar que, para os gregos, a questão de gosto pessoal não fazia qualquer sentido).

Interessa-nos a atualização que Aristóteles opera no pensamento de Platão – de quem foi discípulo durante 20 anos. Este supunha que a arte, enquanto operação mimética, é nociva na medida em que, ao imitar (ou “representar”) objetos moralmente repreensíveis, ensina o crime; já em Aristóteles a mímesis não é imitação de certo modelo, tampouco representação, porém a mímesis de uma ação:

A tragédia é uma representação imitativa de uma ação séria que forma uma unidade de conjunto comunicada em uma linguagem embelezada encenada, e não narrada – culminando, por meio da piedade e do terror, na catarse das emoções.

ARISTÓTELES, Poética, Cap. VI

Não é a forma, o cânone, que define a arte; mas a representação de ações. Se o referencial da arte são ações humanas – há lugar tanto para a tragédia, quanto para a comédia (a segunda parte da Poética, dedicada a esse tema, não existe mais). Muito diferente de um modelo de comportamento moralizante, tal como concebia Platão, Aristóteles preconiza que o herói trágico é motivado pelo erro (hybris), e não deve ser perfeito; pelo contrário: precisa possuir limitações como os demais sujeitos, a fim de gerar identificação (daí provém um pressuposto crucial da ficção moderna).

AUSTIN UZOR, “Crop rotation”, 2020 | óleo sobre tela (41×42 inches)

Isso é determinante, pois situa o fazer artístico na “técnica” (tanto é, que Aristóteles escreve um “manual”). Em Platão, a arte não provém da tékhne[1]: o artista escreve dominado pelas musas (entidades divinas da inspiração); sua orientação, portanto advém de uma força superior (lembremo-nos que na Ilíada, como todo poema épico, Homero inicia por “Canta-me, ó deusa, do peleio Aquiles a ira tenaz (…)”, assim como nos Lusíadas Camões invoca as musas do rio Tejo, as Tágides).

Para Aristóteles, um manual é consequente porque é um sujeito quem opera o fazer artístico, mediante uma técnica. E aqui, uma consideração curiosa:

O que é techne? É uma palavra riquíssima de significados em grego e com muitas possibilidades de desdobramento e aplicação. Por isso, quando escutamos hoje a palavra técnica, esta se prende a uma possibilidade de significado da palavra grega, mas não é o seu mais importante. Em primeiro lugar téchnē diz o conhecer por intuição da experiência. Tal intuição gera um saber que provém de um “ver” originário. É o próprio ver originário, aquele ver que antes de ser já era. Para a experiência grega ver é ser.[2]

Manuel Antônio de Castro, “Amar e ser”, p. 319

ARTE NA PÓLIS E NA POLÍTICA

Se os pitagóricos no séc. VI aC pensavam o produto artístico como expressão harmônica de proporções matemáticas, acreditando num caráter “purificador” da arte em sentido religioso, ritual – Aristóteles, diferentemente, o faz num registro secularizado: ou seja, os efeitos da arte atuam no próprio corpo. Uma vez que a capacidade de representação é natural do humano, a imitação, como aprendizado, é fonte geradora de prazer.

Antes dele, Platão dera início à reflexão sobre o fenômeno artístico, expressando uma visão moralizante e idealizadora da arte. Nesse sentido, dois pontos em especial nos interessam: para Platão, arte não é técnica, pois sua fonte de inspiração é divina (as musas, segundo já mencionado), e seu propósito deve ser pedagógico. Mais ainda, o filósofo critica a capacidade ilusória, enganadora da técnica (mímesis), em especial nas artes da palavra: a arte deveria tender a ser ensinável e deveria pautar-se sempre em princípios racionais – concepção também socrática, e que invalida a ideia de ilusão (mímesis), julgando que, ao falsear o real, a arte engana e subverte. Platão censurava na arte o ilusório, e condenava as criações “maravilhosas, fantásticas ou moralmente condenáveis” (1). Não é por outro motivo que de sua República ideal, o artista que se dedicasse a tal atividade, seria banido.

Aristóteles inverte a chave: trata a arte como fenômeno técnico e confere estatuto autônomo à poética (livrando-a de injunções morais ou políticas, como fez Platão). Em sua Poética, a poesia se refere ao universal; a História, ao particular. A arte representa; a história relata. Na contemporaneidade, esse princípio de universalidade X particularidade tem sido questionado – mas mantem-se vivo outro princípio, implícito no pressuposto aristotélico: quando a arte não narra, ou seja quando é menos digressiva e mais voltada à ação (como nas tragédias gregas, ou na Ilíada, por exemplo) o efeito estético que alcança é maior.

DE VOLTA À VALÉRY

CRISTINA JOBS “Replica of my father” (silicone)

Iniciamos com a distinção entre as Poéticas – mencionando que, enquanto a de Valéry se contrapunha aos padrões formativos, a de Aristóteles definia a produção artística justamente através deles. Aí é que ambos, tão diferentes, acabam por encontrar-se: afinal, o que residia no fundo do pensamento de Aristóteles (que a técnica, aliada à autonomia da poética com relação à diretivas canônicas, garante o bem fazer da arte) e aquilo que representava o poien de Paul Valéry– ambos não têm enunciados absolutamente semelhantes? Segundo vimos, na Poética de Valéry a arte só pode operar por meio da técnica (“estudo, reflexão, disciplina e dedicação”) porém, sem reduzir-se a padrões normativos.

É clara a rejeição de Valéry à ideia de que a criação provenha da inspiração. Valéry interpõe em seu lugar “a visão palpável do trabalho árduo, rigor e disciplina do poeta e do artista” – recusando o mundo romântico da inspiração. Não são poucas as ocasiões em que expressa “aversão ao espontaneísmo expressivo, mas soube reconhecer, com aprimorada argúcia, o trabalho de artistas que se mantiveram no  rigor da  construção”.(3)

Valéry era um admirador de Edgar Allan Poe – autor do famosa ensaio “Filosofia da composição”, onde o poeta estadunidense expõe o modus operandi de seu poema O Corvo. No ensaio, Poe é explícito no mesmo sentido de Valéry:

Muitos escritores, especialmente os poetas, preferem ter por entendido que compõem por meio de uma espécie de sutil frenesi, de intuição estática; e positivamente estremeceriam ante a ideia de deixar o público dar uma olhadela, por trás dos bastidores, para as rudezas vacilantes e trabalhosas do pensamento, para os verdadeiros propósitos só alcançados no último instante (…)

ALLAN POE, A Filosofia da composição

O que transparece desses autores é – nem uma preocupação exclusiva com a técnica, tampouco com seus conteúdos: mas justamente a busca por uma filosofia, talvez mesmo uma Epistemologia capaz de reunir os conceitos e significados implícito na técnica e em seus procedimentos construtivos.

Conteúdo do primeiro encontro do [CURSO] Processos Poéticos


  • [1] “Ao traduzirem para o latim o tratado de Aristóteles sobre as obras poéticas: Peri poietikés technés, ocorreu o seguinte: esqueceram que o principal e decisivo, conforme Platão já o afirmara em O Banquete, é a poiesis. E optaram pela techné, pelo conhecimento, ao traduzirem-na como ars, artis (arte). Vejam a ironia, o Ocidente estuda a arte num tratado de Poética, como techné e não como poiesis“. CASTRO, Manuel Antônio de. Linguagem: nosso maior bem. Série Aulas Inaugurais. Faculdade de Letras, UFRJ, 2o. sem. / 2004, p. 28. In: Dicionário de Poética e Pensamento
  • [2] CASTRO, Manuel Antônio de. “Amar e ser”. In:——. Arte: o humano e o destino. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2011, p. 319.
  • [3] A criação poética na perspectiva de Paul Valéry, artigo de Olga Nancy Peña Cortés

Imagem da capa | EMIL ALZAMORA

https://curate.la/event.php?id=21060

Créditos: R© 2021 curate.la

Publicado por Gustavot Diaz

Artista visual e poeta, co-fundador do espaço artístico MÍMESIS | Conexões Artísticas em Curitiba, e ministrante de Oficinas de Anatomia Artística e Desenho o Corpo Humano com Modelo Vivo em Porto Alegre (RS), onde reside e trabalha.

4 comentários em “[PROCESSOS POÉTICOS] PRIMEIRA AULA | Desinvenção da visão: POÉTICAS (Parte 01)

  1. Muito importante discutir de onde nasce a obra e qual o papel do artista na execuçao da obra. Muito importante na atualidade saber o lugar da açao minética da realidade, ou seja , a arte imita a vida de que forma?

    Curtido por 1 pessoa

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