OS PARADOXOS DO DESENHO: NOTAS PARA UMA EPISTEMOLOGIA

PAU MARINELLO (detalhe da série “Brave New World”) | mixed media sobre papel

Parte do conteúdo teórico a ser ministrado no Workshop“Figura Contemporânea” (Porto Alegre | 28 de março, 04, 11 e 18 de Abril | 2017) Mais informações aqui!

 

O Desenho opera mediações entre inúmeros paradoxos, desde o lugar do próprio desenhista – um espaço entre duas experiências: a experiência que advém no momento de ver; e outra, aquela que deseja provocar no olhar do expectador. O objetivo último do desenhista é processar (recriar plasticamente) a experiência visual que recebe, de modo a fazer conhecer ao espectador também essa experiência. Assim, desenhar é viver e produzir experiências.

O que suscita experiência no espectador é a emulação de coordenadas que orientam e vertebram sua sensação de “realidade”. Toda experiência é guiada por coordenadas simbólicas; cabe ao desenhista recriar as condições em que essas coordenadas atuam. No caso do desenho, para a experiência visual funcionar é preciso efetivar a ilusão de tridimensionalidade – fazendo com que o espectador veja uma figura humana, onde antes só havia apenas parede, tela, papel, suporte em branco. E não é senão a técnica o que confere ao artista o modus operandi destas coordenadas.

ÉDER OLIVEIRA, 2015 | acrílica sobre muro (Belém)

O DESENHO É A MATEMÁTICA DA FORMA

Outro paradoxo constitutivo, desta vez em sua mecânica prática: no momento em que desenho, não posso olhar para meu modelo; quando enfim o vejo, não posso desenhar. Ou bem olho para o papel enquanto desenho, ou bem olho o modelo (instante esse em que não desenho). É nesta lacuna, nesta paralaxe entre modelo e papel que o desenho acontece em sua forma ideal – primeiro síntese que se opera na mente (ou olhar) do desenhista, para então plasmar-se no papel a partir do confronto com os materiais expressivos. Só isto já basta para imbricar uma série de questões: o que desenhamos não é então o que vemos, mas o que sabemos da forma vista, nossa memória dela? Todo desenho, afinal, vem da “imaginação”? Como é possível à matéria precária dos materiais artísticos traduzir a complexidade do corpo humano?

ANTONIO LÓPEZ GARCÍA, “Maria”, 1972 | lápis sobre papel

O desenho se processa através da codificação visual do que é visto e sua subsequente decodificação em linguagem plástica. Noutras palavras ainda, consiste em traduzir o conteúdo do olhar em solução formal: vejo o modelo, interpreto com o olhar a sua imagem e procuro expressar essa interpretação em termos formais, com ajuda dos materiais, na prática. Numa definição mais genérica, esse trabalho de co/decodificação apresenta o desenho como o “pensamento da forma”; desenhar é pensar a forma.

O DESENHO É A ETIMOLOGIA DA ARTE

Outro paradoxo de fundo do desenho, expresso numa luta intestina entre as escolas históricas desde o início do Renascimento, é a disputa entre linha X cor (linear X pictórico). O esteta suíço Heinrich Wölfflin percebeu, com uma intuição notável, os resultados desta aplicação em sua caracterização dos estilos linear e pictórico. Em síntese, ele conjuga numa esquematização de princípios toda arte ocidental como subordinada a uma dessas categorias estilísticas. A “arte linear” baseia-se no desenho, na proporcionalidade, na linha e na dimensão harmônica; a “pictórica” baseia-se na cor, na gravidade, na ambientação, no arrebatamento emocional.

Um campo de trigo, com casas de camponeses e respigadores trabalhando importam menos a Van Gogh do que a dimensão emocional pela qual o artista estava passando no instante exato em que os pintou. A ressonância presente da cor nos informa menos uma história acontecendo externamente do que a dimensão emocional subjetiva do artista – e é isso mesmo de que se trata qualquer obra de Van Gogh, assim como do Romantismo e, talvez, parte essencial do Barroco. A cor é o pathos, a emoção presente, o arrebatamento do momento, indefinível conceitualmente.

ARTURO RIVERA (técnica mista)
ARTURO RIVERA (técnica mista)

O “conceito” é propriedade da linha, do desenho linear – capaz de produzir discursos, contar histórias e emitir opiniões. Sendo a “eixo intelectivo” das produções artísticas – quer dizer, o fio condutor da narrativa ou da representação simbólica, o desenho linear apresenta a origem da imagem, o conteúdo constitutivo que a revela sua estrutura de sentido. Assim o desenho, resgatando as lacunas de vazio da percepção, ressuscita a obviedade de seus espaços mortos de afeição e sentido; é um exercício de etimologia.

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Outros textos do autor:

Revista Não Obstante
Filosofia do Design
Acrasias

 

imagem da capa
ERNESTO BONATO “maré” (módulo 05) | xilogravura, 94 x 194 cm, 2015, p.a.

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