A representação na arte mobiliza a experiência – esta contundente estratégia que estrutura e é, ao mesmo tempo, estruturada pelo ato poético. Quando o artista vê o mundo, seu recurso de processar a experiência em linguagem visual faz nascer a experiência também no expectador; assim, a produção imagética articula vivências. A imagem é, então uma mediadora simbólica na qual o artista sintetiza o que está disperso na realidade e lhe dá forma, tornando visível o que antes não era “aparente”.

A arte torna a realidade mensurável, e assim é que ela intervém no campo dos afetos. Sem as formas, como veríamos – ou melhor, como imaginaríamos a infinita complexidade das experiências?

HARRY MCALPINE, "Recommended Content", 2019 | carvão sobre papel, (760 x 560 mm)
HARRY MCALPINE, “Recommended Content”, 2019 | carvão sobre papel, (760 x 560 mm)

No radical latino da palavra “experiência” – significando uma vivência testada que se tornou conhecimento, está o termo perícia: saber oriundo de experimentos repetidos que conferem “expertise” num assunto. Quando o conhecimento é firmado em um código linguístico, ele pode ser avaliado, transmitido, compartilhado (é o caso de ser transposto em forma de narrativa). Mas se um conhecimento for elaborado na retórica visual de uma imagem, esta se torna, então condutora de experiências.

Eis como a narrativa, presente nas imagens (que chamamos de representação), está implicada na produção de afetos e saberes: quando compartilhadas e postas em circulação no intercâmbio da cultura, as imagens alimentam imaginários e representações dos sujeitos.

Em alemão, a palavra “experiência” (Ehrfahrung) carrega o termo viagem (fahren)[1]. Para responder a pergunta comum: “Como foi a viagem?” é necessário fazer um relato dela, ou seja, é preciso elaborar, “formular” (dar forma) o que a viagem significou pra mim. Isso implica verbalizar o quanto ela me alterou, o quanto difere o eu que foi, daquele que retornou. Somente assim, ou seja, somente simbolizando seus acontecimentos, é que posso conhecer o efeito que a viagem causou, e a partir disso fazer seu relato. Como a experiência sempre nos modifica incidindo um estado anterior – em que ainda não conhecíamos algo, e um estado posterior, quando, então passamos a conhecer algo – ela é sempre transformadora. Porém, assim como as viagens, é preciso que um evento seja simbolizado a fim de que se efetive como experiência. Veremos a seguir outros modos como imagem e experiência se relacionam.

RICCARDO MANNELLI | técnica mista sobre papel
RICCARDO MANNELLI | técnica mista sobre papel

Qualquer notícia que recebamos, seja por um amigo, pela televisão ou pela internet é, sobretudo uma consulta a imagens. São elas que mediam nossa experiência de saber, pois articulam nossa relação com o mundo. Já falamos em outro texto como os meme’s direcionam experiências e moldam afetos – assim como as fake news, eles mostram notícias falsas a partir de imagens verdadeiras. Quem trabalha com imagens deve estar ciente do valor de experiência que o simbólico (imagens) carregam, pois ele está por trás da estratégia de convencimento da representação. Talvez um gesto do psicanalista Jacques Lacan possa ilustrar perfeitamente isso: uma paciente sua, nascida na Alemanha em 1938, e que viveu os horrores da Segunda Guerra, relata:

Um dia, numa sessão, contei a Lacan um sonho que tive. Eu disse: “acordo todos os dias às 5 da manhã, era essa a hora que a Gestapo vinha procurar os judeus em suas casas”. Nesse momento, Lacan se levantou como uma flecha de sua poltrona, veio na minha direção e me fez um carinho muito doce no rosto. Eu entendi: “geste à peau”… [ele transformou “Gestapo” em “geste à peau” (gesto na pele), expressões que na língua francesa têm a mesma fonética]. (Documentário Um Encontro com Lacan, 2011, dir. Gérard Miller)

1Falsas (e velhas) notícias

Ao reescrever simbolicamente sentimentos conflitivos, o gesto de Lacan almejava reelaborar a gramática de afetos da paciente. Esse procedimento da clínica psicanalítica explica precisamente o funcionamento das imagens como promotoras de experiência – muito pertinente para o atual momento de manipulação de opiniões em larga escala através da web (está em andamento no congresso uma CPI dedicada ao caso, já agora visto como fenômeno de graves implicações políticas). Nas fake news e meme’s – forma mais rudimentar da experiência imagética, o texto atua como um vetor que orienta interpretações específicas visando a(du)lterar o valor das imagens. Atribuindo-lhes determinadas conotações, intervêm na ordem dos afetos a elas relacionados. Não é à toa que o termo meme deriva do grego “mimese” (eixo da representação).

Claro que há uma dialética aí. Não são notícias falsas que movem os sujeitos e a política, é o contrário: são os grupos que creem e as compartilham o que move as fake news. O pano de fundo do massivo compartilhamento de notícias falsas é o chamado “viés de confirmação” (indispensável ao entendimento da pós-verdade) – onde o sujeito acredita em uma notícia não por qualquer lógica intrínseca, mas porque a notícia confirma sua crença anterior, e ele então se dispõe a acreditar. Neste caso, não há experiência envolvida, pois não há um estado posterior de saber, apenas apego a um estado anterior onde já tudo se sabe; não são “news”, são apenas “fake”. Não há nenhum elemento novo nessas notícias as quais, portanto não constituem experiências transformadoras, pelo contrário, apenas reforçam estereótipos e preconceitos.

O perigoso das fake news é o fato de redundarem sempre na propagação de dois afetos, os mais primitivos da espécie humana: o medo e o ódio. Esses são precisamente os valores circulantes no fascismo, e por isso essa ideologia paranoica de guerra e anticivilizatória deve ser combatida. Uma sociedade extremamente desigual não se torna fascista espontaneamente; ela pode chegar a níveis altíssimo de violência, e mesmo assim não descambar para o fascismo. Já uma sociedade com valores fascistas em circulação pode se tornar fascista, mesmo num território de igualdade e bem-estar social.

LUCY HARDIE, "Last Breath II", 2019 | carvão sobre papel
LUCY HARDIE, “Last Breath II”, 2019 | carvão sobre papel

A função do Desenho no campo dos afetos

A política polarizada como a nossa não se configura como espaço de entendimento recíproco; ela institui um campo de debate sem interlocutores onde o que se impõe não é a força da razão, mas a razão da força. Como o exercício de convencimento se faz extremamente difícil, delega-se sempre por maioria de votos, nunca por consenso. Ideias políticas expressam adesões profundas a modos de vida particulares e a sistemas de pensamento baseados em afetos – processos não totalmente racionais e conscientes (como explica o filósofo Vladmir Safatle). Por esse motivo, a escuta e o diálogo são quase impossíveis em meios de polarização extrema.

Aqui é onde o Desenho (estratégia que constitui as imagens na sua elaboração conceitual, ou seja, que formula os seus significados) assume uma função fundamental. Afetos são produtos da subjetividade construídos a partir de adesões que mantêm os sujeitos presos a certas representações; em meios de intransigência e falta diálogo, o que se pode fazer então é atuar no sentido de “destituir afetos”. Isso significa alterar o regime de afecções que circulam nos meios onde a informação é veiculada. É o que fez Lacan em seu preciso gesto naquele momento de sua clínica; é o que faz o artista ao revelar novos significados, mantendo ativa a circulação no interior da economia dos afetos.

JORDI DIAZ ALAMA, "Aurora" ("Red studio" serie), 2019  |  Mixed media Sobre tela (150x150cm)
JORDI DIAZ ALAMA, “Aurora” (“Red studio” serie), 2019 | Mixed media Sobre tela (150x150cm)

O que nos move são os afetos ativados pelas experiências. Os afetos nos colocam neste lugar psíquico chamado subjetividade. São experiências afetivas que constroem nosso lugar perante o mundo, nossas representações do “outro”, nossos modos de ver, nosso ethos na cultura, a relação espontânea e complexa com o meio social – que é permanentemente sustentada por ideias transmitidas em imagens que produzem experiências que ativam afetos. Essa cadeia ora reforça, ora qualifica, ora destitui a estrutura de nossos valores. Como demover um sujeito de um lugar psíquico? Como incidir em sua construção subjetiva? Com afetos. O regime da arte, enquanto intercâmbio sensível, é o lugar onde os afetos são reelaborados, avaliados, colocados em xeque ou entronizados.

A força que a arte tem de fazer constelar novos valores no interior da cultura se deve, justamente, a sua capacidade de produzir e também de minar afetos.

Não é por outro motivo que a publicidade se vale da arte para vender, e os governos para convencer seus eleitores. Seja através de patrulhamento e censura, seja se apropriando de seus meios ou mesmo desmontando e descreditando suas instituições, a arte é sempre perseguida em regimes totalitários, pois é capaz, tanto de atuar na absorção de valores, como na desestabilização das representações sobre as quais diferentes afetos se edificam. A arte redesperta a estesia adormecida, ativando ou desativando ideários, fazendo circular a gramática daquilo que nos move.

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[1] A acepção filosófica do termo “experiência” mencionada no início do texto tem origem em Hegel (que depois Lacan e Walter Benjamin irão retomar para qualificar a experiência analítica da Psicanálise) e é desenvolvida pelo professor Christian Dunker no seguinte livro:
DUNKER, C. & RODRIGUES, L. Cinema e Psicanálise (vol. 2). São Paulo, Ed. nVersos, 2015 (p. 99 em diante).

 

 

obra da capa
GERARD MEDETZ, 2011, “How you reacted was right” | escultura em madeira (170 x 56 x 32,5cm)

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