A DIFERENÇA ENTRE “COPIAR”, “COLAR” E “CRIAR”

O que possibilita participação ativa na esfera da arte é o saber das linguagens. O conhecimento dos códigos constitutivos das categorias artísticas permite uma apreciação qualificada; mas há sempre algo que escapa, mesmo ao melhor crítico, ainda ao diletante mais perspicaz: o interior da técnica. Claro, saber “ler” um desenho a carvão não é o mesmo que saber “desenhar” com este material – o expectador de um desenho estará sempre “de fora”, como se visse um espelho da coisa, com o qual não pudesse interagir.

O domínio da dimensão das linguagens é, por isso mesmo, um pesadelo para o artista: até porque, indiferente daquilo que se produza, o embate com os materiais será uma constante em sua vida. Como venho dizendo, a técnica não é a arte; a técnica é o que possibilita a expressão de significados – uma vez unidos ambos, tem-se a obra artística ou solução plástica de representação.

Vincent Xeus.
VINCENT XEUS | óleo sobre tela

As leis que regem a forma, se aplicadas mecanicamente perdem a dimensão estética – podem ser utilizadas para uma sinalização urbana mais efetiva, por exemplo. Mas a estética é muito mais que isso. Um desenho cujo objetivo é copiar outro desenho, ou fotografia– em que pese a esfera (cri)ativa que possa haver na cópia – sem preocupações em realizar uma “transcriação” da forma (segundo conceito de Haroldo de Campos), limita-se a uma réplica, cujo valor está no aprendizado técnico. Essa mesma técnica aprendida, uma vez introjetada pelo desenhista, torna-se recurso expressivo em suas mãos, capaz de gerar novas obras e explorar novos significados. Do contrário, o desenho se torna produto; é reproduzido como uma página de xerox.

MARK SIJAN, escultura
MARK SIJAN, escultura

Os significados são ocultos pela moeda gasta dos signos, que os vestem. Desmascarar as convenções que encobrem o “real”, os convencionalismos que se fazem passar por substitutivos dos significados do mundo é tarefa fundamental do artista, sobretudo em nossa sociedade, onde tomamos a coisa pelo vazio de sua aparência. Sabemos que o fundo das coisas (sua suposta “essência” para além da substância), é afinal um deserto.

 

 

As convenções, no entanto, encobrem de forma inevitável certas (senão todas as) dimensões da vida e devem ser rearticuladas: a vestimenta com que a linguagem organiza a experiência dos elementos sensíveis do mundo precisa ser trocada permanentemente. A arte, enfim, possui essa importância crucial de descortinar o véu de invisibilidade com que as convenções vestem os eventos.

É claro que o desenhista dedicado ao processo da cópia tem enorme importância, inclusive histórica. Que seria das gravuras dos mestres do passado sem seus gravadores assistentes – o pessoal da oficina de Gravura dedicado a solucionar os difíceis problemas da gravação das tiragens? Ou dos pintores, sem assistentes que executassem os procedimentos sistemáticos da pintura? Têm eles a mesma importância que um tradutor em relação ao poeta cuja obra traduz.

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PATRICK RIGON, 2015 | “O alimentador”, óleo sobre madeira

Não é certamente esse o vetor que vertebra o “Hiper-Realismo Contemporâneo” a que vimos aludindo nos últimos artigos. Os conteúdos da arte obviamente ultrapassam as regras de seu ofício. As representações hiper-realistas atuais, junto de outras fundamentais características definidoras deste tipo de produção, não se limitam à reprodução. Isso seria transformar o meio em finalidade.

O objeto desta “escola” (se podemos chamar assim) não são os elementos da linguagem visual; nela, a importância do mimetismo é definida mediante os conteúdo (psíquicos, sociais, políticos) enunciados na obra. Tanto é que a grande maioria dos artistas filiados ao Hiper-realismo Contemporâneo vale-se de retroprojetores, depois do que pintam por sobre o traçado do desenho. Não se trata de mera demonstração de virtuosismo, por vezes duvidoso, como boa parte de certo hiper-realismo praticado hoje no Brasil…

Anna Halldin Maule
ANNA HALLDIN MAULE | óleo sobre tela

Os hiper-realistas contemporâneos sabem desenhar, sem dúvida alguma. No mundo da aridez pós-moderna, da assepsia das instalações e da arte conceitual, o Hiper-Realismo Contemporâneo vem trazer um alívio e novo interesse para a visão. Porém, só o faz porque disputa, enquanto arte, o campo dos significados, rearticulando as linguagens e tensionando a própria arte e os artistas.

 

 

 

 

 


imagem da capa | RAN ORTNER (óleo sobre tela)

 

Publicado por Gustavot Diaz

Artista visual e poeta, co-fundador do espaço artístico MÍMESIS | Conexões Artísticas em Curitiba, e ministrante de Oficinas de Anatomia Artística e Desenho o Corpo Humano com Modelo Vivo em Porto Alegre (RS), onde reside e trabalha.

8 comentários em “A DIFERENÇA ENTRE “COPIAR”, “COLAR” E “CRIAR”

  1. Os desenhos e pinturas hiper-realistas contemporâneos hoje, no meu ponto de vista, não ficam restritos somente à técnica como nos anos 60 e 70. A meu ver têm um caráter conceitual sim, pois traduzem em sua essência com maior fidelidade a efemeridade e inversão de valores da vida contemporânea.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigado Marcelo!

      Pensamos exatamente o mesmo… Essa distinção que apontas, no entanto, não parece estar sendo levada em consideração pela crítica. É esse caráter “conceitual” do Hiper-realismo Contemporâneo que não apenas o distingue daquele de 60, como o re-situa na História da Arte como uma “escola” de extrema relevância, capaz de disputar mesmo o que se entende por “vanguarda”! Porém como disse, no Brasil há “certo hiper-realismo” que não tem se mostrado capaz de refletir sobre as temáticas que aborda, reproduzindo mecanicamente os signos apagados do senso comum…

      Abraço,
      G

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  2. Caro Mestre, análise esplêndida. Apenas senti falta das citações já registradas dos artistas mais destacados do Mediêvo, que se valiam das últimas tecnologias disponíveis, no campo do Technos para a pré-elaboração de suas pinturas, com os recentes conhecimentos obtidos pela existência de lentes polidas que em muito breve atenderiam ao surgimento da Astronomia, 100 anos depois) nos “caixotes de imagens”, as quais eram projetadas na tela à ser executada, uma espécie de DataShow raíz. Oras, conceda telas pré-configuradas destas para quaisquer outros artistas e as chances destes reproduzirem o que originalmente foi intentado, é zero. Zeit Geist, é bem isto e esta “Escola” como você define com muita propriedade, é mais que bem-vinda, em um habitat onde temos que engolir constrangidos o atual panorama das Artes, floodada de artistas que não sabem desenhar, o que os tornam, na maior das boa vontades, artesãos qualificados…

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