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Pequeno Histórico da Anatomia Artística

GUSTAVOT DIAZ |estudo em aquarela de Anatomia, (2010)

GUSTAVOT DIAZ |estudo em aquarela de Anatomia, (2010)

Anatomia: do latim tardio, anatomia; do grego, anatomê/ês:  incisão, dissecação de alto a baixo. Compósito de “ana”: de alto a baixo e “tomê”, corte, incisão. (Termo atribuído tradicionalmente a Teofrasto, um dos discípulos de Aristóteles, no século IV a.C.)

O termo Anatomia nasce do latim, porém o seu estudo se inicia bem antes da formação do Lácio e dos antigos romanos. Data do ano 3.000 a.C. na China o aparecimento da dissecação explorativa e já em papiros egípcios de 3000-2500 a.C. notificam-se dados sobre a anatomia da cabeça e do cérebro humanos (“Papiro de Edwin Smith”). Consta que no antigo Egito tenha-se mumificado cerca de 70 milhões de cadáveres, o que sem dúvida alguma gerou um acúmulo de conhecimentos anatômicos, embora pouca coisa nos tenha sido transmitida.

BERNHARD SIEGFRIED ALBNUS, "Índice do esqueleto e músculos do corpo humano" (1749)

BERNHARD SIEGFRIED ALBNUS, “Índice do esqueleto e músculos do corpo humano” (1749)

No período grego, embora dissecações já fossem realizadas, grande parte teria se limitado à abertura de corpos de animais; o próprio Aristóteles o teria feito. Embora registros mencionem em geral o contrário, é de se imaginar que a Grécia houvesse aglutinado um vasto repertório de Anatomia Humana, dado o domínio técnico de suas produções, sobretudo no período helenístico, aliado a um raro nível de elegância formal. Mas esses conhecimentos não teriam, em sua maioria, chegado até nós. O primeiro grande momento da história da Anatomia parece ter se dado, de fato, na Escola Médica do Museu de Alexandria, fundada em 290 a.C. durante a dinastia Tolemaica. Quando Tolomeo Sóter (conhecido como o “Salvador” e um dos principais generais de Alexandre, o Grande) assume o reinado do Egito entre 305 e 284 a.C., funda junto à Biblioteca de Alexandria, o Museion – ou “Templo das Musas”, sediado na Escola Médica, onde se empreenderam diversas dissecações, dando um importante passo ao estudo da Anatomia Humana.

48eab609e6ca46a55c09f078ff85654fAinda por volta de 300 a.C., na Grécia, aparece a figura de Herófilo (nascido na região onde se situa atualmente a Turquia, 335 a.C. ? 280 a.C.), um dos maiores anatomistas gregos, pioneiro na dissecação de corpos humanos. Conferindo pela primeira vez no Ocidente uma base concreta à Anatomia, Herófilo deixou contribuições aos estudos do cérebro, identificando-o como centro do sistema nervoso e sede da inteligência, e compreendeu a distinção entre nervos motores e sensitivos. Também deste período data Erasístrato de Chio (310 a.C. 250 a.C.), o primeiro a afirmar que as veias, à semelhança das artérias, tinham o coração como destino, e a descrever as válvulas cardíacas. Após um período de relativa estagnação, aparecem Marino, vivendo em Roma no tempo de Nero, e Rufo, oriundo da colônia grega de Éfeso. Marino não deixou escritos, mas seus ensinamentos foram preservados pelo discípulo Claudius Galeno (Pérgamo, 129 d.C. Roma, 199).

Galeno, além de haver traduzido as obras de Herófilo (boa parte delas destruídas no incêndio da biblioteca de Alexandria), fora um importante médico grego, cirurgião oficial dos gladiadores de Marco Aurélio e destacado seguidor da medicina de Hipócrates (Cós, Grécia, 460 a.C. Larissa, Tessália, 377). Precursor da fisiologia experimental, legou-nos investigações bastante completas como a organização dos nervos, veias e artérias, tendo realizado inclusive a vivissecção. A maioria de suas dissecações, contudo, limitava-se a corpos de animais, em especial do macaco africano, uma vez que a abertura de cadáveres humanos era considerada profanação religiosa, rigorosamente proibida por lei. Mesmo incorrendo em inúmeros equívocos – seja pela profusão de seus apontamentos, seja pela importância associada à sua figura na corte de Marco Aurélio, seus escritos transformaram-se em paradigma durante o período histórico posterior, constituindo-se efetivamente em dogma para a medicina durante a Idade Média, juntamente ao Corpus hippocraticum (tratado que a tradição atribui a Hipócrates), e aos Tópicos de Aristóteles. Essa cristalização paradigmática medieval paralisou o estudo anatômico por alguns séculos. A ditatorial tutela que a igreja Católica exerceu sobre o conhecimento no período escolástico fomentou explicações divinas à origem das doenças, sendo uma das maiores causas adversas ao desenvolvimento consciente e sistemático dos estudos médicos (e das ciências em geral).

MICHELANGELO BUONAROTTI, o maior conhecedor de Anatomia do período renascentista (estudo para "A Criação do Homem", sanguínea, 1511)

MICHELANGELO BUONAROTTI, o maior conhecedor de Anatomia do período renascentista (estudo para “A Criação do Homem”, sanguínea, 1511)

À quase total retração no período medieval – quando as dissecações foram sumariamente proibidas – segue-se o surgimento do estudo anatômico na Europa renascentista, cujos avanços, entretanto demandaram desconstruções e reinvenções. Até então, a concepção clássica (filosófico-religiosa pagã) e a mediação mística entre o homem e o mundo (esta pressuposta pela escolástica) ofereciam todas coordenadas de interpretação acerca do homem e de sua relação com a morte; e com o próprio corpo morto.

Apenas no início de 1400 as dissecações voltam a aparecer, tendo alguns eventos atuado sobremaneira neste retorno: o crescente fortalecimento das corporações de ofício (ou guildas) medievais – em especial a dos cirurgiões-barbeiros; as grandes navegações que entraram em contato com novos métodos no tratamento de doenças; a disponibilidade de recursos para investimentos em técnicas de cura e a descoberta de terapêuticas originadas a partir da apreensão da organização interna do corpo – o que estimulou, por fim, estudos mais completos e o início da especialização da medicina como disciplina autônoma do conhecimento.

Esses fatores movem-se dialeticamente no processo de ascensão da burguesia europeia. O desenvolvimento econômico desta classe associado à sistematização da medicina criou imediatamente uma enorme demanda por cadáveres, cuja obtenção foi facilitada com a dissecação pública de condenados à morte – único meio legal de disponibilização de corpos no período. Este recurso não supria, porém, a exigência das escolas de Medicina, o que encetou o tráfico de corpos. A proibição impingida à dissecação e a perseguição daqueles que o tentavam gerou efeitos verdadeiramente desastrosos.

LEONRDO D VINCI: inúmeras contribuições ao desenvolvimento da Anatomia moderna (1489)

LEONRDO D VINCI: inúmeras contribuições ao desenvolvimento da Anatomia moderna (1489)

Um exemplo prototípico da violência suscitada foi quando da fusão entre os grêmios (ou guildas) dos “barbeiros” e dos “cirurgiões” em 1540, sob o reinado de Henrique VIII. Embora gerando enorme desenvolvimento à Anatomia, apenas corpos de condenados à morte por enforcamento eram destinados aos estudos médicos – o que gerou uma onda de execuções. Na Inglaterra, notavelmente a abundância de corpos foi produto do afã em se ampliar os conhecimentos anatômicos: consta que no primeiro ano da fusão referida entre as guildas, a escola recebeu 4 corpos. Nos últimos anos do reinado, a média anual de condenados à morte subira para 560 por ano. Relatos históricos afirmam que a dissecação pública como penalidade, destinada apenas a crimes como assassinato e traição, estendera-se também a criminosos comuns. (Para termos ideia de quão longe foi a barbárie envolvendo as dissecações, já em 1828 se registrou 16 assassinatos com a finalidade de venda de corpos para uma escola privada em Edinburgh, na Inglaterra).

O espírito empirista reinante na Renascença advindo de uma atitude objetiva diante da natureza e dos fenômenos – sem dúvida associado à iminente motivação pelo lucro e necessidade de criação de novos mercados e técnicas – derrubou muitos dogmas eclesiásticos. No âmbito da Anatomia médica, e também artística, esta nova atitude metodológica percebeu e retificou inúmeras incoerências nos escritos de Galeno.

Um fator importantíssimo que possibilitou a prática efetiva desse progresso foram as investigações realizadas pelas artistas, e faz-se quase desnecessário aqui o destaque a Leonardo da Vinci (Florença, 1452. Amboise, França, 1519), Michelangelo Buonarroti (Florença, 1475. Roma, 1564), Raffaello Sanzio (Urbino, 1483. Roma, 1520) e Albrecht Dürer (Nuremberg, Alemanha, 1471. Nuremberg, 1528).

Neste momento, as artes visuais assumiram protagonismo na nova conformação do mundo, que se reescrevia sob a batuta científica e artística. Conciliando os interesses científicos e estéticos, os artistas do Renascimento proporcionaram uma síntese das áreas em produções ainda hoje admiradas. O corolário desse interesse emergente foi a publicação do tratado De Humani Corporis Fabrica de Andreas Vesalius (Bruxelas, 1514. Zante, Grécia, 1559), no ano de 1543, em Basiléia, na Suíça. Com abundantes ilustrações desenvolvidas por artistas seus contemporâneos, e apresentando um estudo sistemático da Anatomia Humana, essa publicação superou definitivamente o que até então se conhecia por Anatomia Humana, estabelecendo as bases da Anatomia moderna.

Gravuras medievais: sistema de cátedras acadêmicas

Gravuras medievais: sistema de cátedras acadêmicas

O ensino anteriormente desenvolvido nas cátedras e teatros anatômicos (cujo símbolo máximo fora o Teatro Anatômico de Pádua), baseava-se no distanciamento entre doutores e discípulos, ancorado por uma divisão mais profunda: entre trabalho manual e intelectual. Essa separação manteve a “letra” clássica intacta, perpetuando uma escala rígida e tradicional de poder. As gravuras realizadas neste período demonstram claramente esse distanciamento físico entre o orador doutor (ou professor catedrático) e o cadáver. Enquanto o primeiro lia em voz alta o tratado de Galeno no púlpito, um cirurgião-barbeiro dissecava o corpo, e um assistente apontava com um bastão as supostas estruturas orgânicas recitadas (os cirurgiões eram também barbeiros, ou vice-versa, pois naquele tempo os profissionais organizavam-se a partir de seus instrumentos de trabalho – como as ferramentas para ambos os ofícios eram praticamente as mesmas, o mesmo profissional exercia ambas as funções).

Nesse sistema das cátedras, as incoerências eram enormes, porém caladas, uma vez que o mistério do dogma determinava a “verdade” do livro em relação à realidade da dissecação. A revolução impetrada por Andreas Vesalius foi a de eliminar a distância entre o orador e o corpo, assumindo o papel do cirurgião-barbeiro e realizando ele mesmo a dissecação enquanto ministrava suas aulas e registrava suas observações.

GUNTER VON HAGENS, cadáver plastinados

GUNTER VON HAGENS, cadáver plastinados

Daí até então o estudo da Anatomia progrediu imensamente, tendo em Charles Darwin (Shropshire, Reino Unido,1809. Down, 1882) um marco deflagrador de sua importância ao estudo das ciências, uma vez que Darwin baseou a teoria da evolução das espécies em constatações anatômicas[1]. Isso descortinou um imenso campo de investigação às Ciências Biológicas fundamentadas na Anatomia. Hoje, avançadas técnicas facilitam a apreensão da Anatomia como softwares 3D, e a “plastinação”, criada pelo alemão Gunter von Hagens; outras colocam a possibilidade desse estudo também em corpos vivos, tais como os Raios-X, ultra-som, ressonância magnética, tomografia computadorizada, cinerradiografia, drogas radioativas, aparelhos elétricos registradores e a endoscopia para exame de órgãos cavitários.

 

[1] Curiosamente, Charles Darwin, tendo se matriculado na faculdade de Medicina em Edimburgo no ano de 1825, abandonou o curso por não suportar as dissecações.

 

Referências Bibliográficas

BARRETO, Gilson; OLIVEIRA, Marcelo de. A Arte Secreta de Michelangelo: uma Lição de Anatomia da Capela Sistina. São Paulo, ARX, 2004.
CLARK, Kenneth. O Nu, um Estudo sobre o Ideal em Arte. Lisboa, Ulisseia, 1956.
HALE, Robert. Great Lessons From the Great Artists. New York, Guptil Publications, 1989.
HAUSER, Arnold. História Social da Literatura e da Arte. São Paulo, Martins Fontes, 1994.
KICKÖFEL, Eduardo Henrique Peiruque. A lição de anatomia de Andreas Vesalius e a ciência moderna. Scientiæ, Vol. 1, No. 3, 2003, p. 389-404.
MANGUEL, Alberto. Lendo Imagens. Companhia das Letras, São Paulo, 2000.
MUNZ, Ludwig & HAAK, Bob. Rembrandt. Harry N. Abrams, Inc. Publishers. New York, 1984.
PANOFSKY, E. Significado nas Artes Visuais, São Paulo, Ed. Perspectiva, 2002.
PETRUCELLI, L. J. História da Medicina. Editora Manole, São Paulo – 1997.
ROHEN, J. W.; YOKOCHI C.; LÜTJEN-DRECOLL, E. Anatomia Humana: Atlas Fotográfico de Anatomia Sistêmica e Regional, São Paulo, 6ª ed. Barueri Manole LTDA, 2007.
SIMBLET, Sarah. Anatomia para el Artista. Barcelona, Naturart, S.A., 2002.
WALKER, Paul. Robert. A Disputa que Mudou a Renascença. Rio de Janeiro, Record, 2005.
<http://amamede28.spaces.live.com/blog/cns!E62103D0E3B34990!141.entry&gt; Acessado em Agosto de 2009.
<http://www.anatomiaonline.com/historia.htm&gt; Acessado em Agosto de 2009.
©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda CD-ROM

 

[Este é parte do artigo original “Da Anatomia Medieval à Anatomia Moderna: um pequeno ensaio a partir de Rembrandt”, também de GUSTAVOT DIAZ, publicado no site filosofidodesign.com em 24 de Novembro de 2014]

Imagem da capa | JACQUES GAMELIN,
“Surgite mortui, et venite ad judicium” (1778)

 

 

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3 pensamentos sobre “Pequeno Histórico da Anatomia Artística

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