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Desenho como “síntese” e “desinvenção”

DIEGO FAZIO, “Informazioni” 2013 |
Matita e aquarela sobre papel

De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
(Fernando Pessoa,  “De quem é o olhar” | 1917)

Certa vez, quando Einstein atravessava um parque, indagou a um transeunte que passava: “Com licença, cavalheiro, poderia me dizer se eu vim da direita ou da esquerda?” O homem, intrigado, respondeu: “Ora, o senhor veio da direita…” – ao que Einstein responde: “Ah sim, então já almocei! Obrigado…” A história, tirada de uma biografia de Einstein, é verdadeira e deve dar conta do nível de abstração em que vivia; mas chama atenção também para um detalhe: o físico que explicou as relações entre espaço e tempo era incapaz de perceber a realidade mais prosaica a sua frente. Em conexão com o poema secular de Pessoa – que questiona quem “vê por nós” enquanto pensamos – a distração desses homens de gênio expõe uma problemática central do desenho: quando pensamos, não estamos vendo.

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Outras relações entre fotografia e arte

ANA TERESA FERNANDÉZ,
ANA TERESA FERNANDÉZ, “Erasure” | 2016, óleo sobre tela, (182.9 X 248.9 CM)

“O século XIX, como sabemos, é amplamente uma invenção de Balzac. (…) Estamos simplesmente continuando, com notas de rodapé e adições desnecessárias, o capricho, a fantasia ou a visão criativa de um grande romancista. (…) o que vemos, e como nós os vemos, depende das Artes que nos influenciaram”.

OSCAR WILDE
A Decadência da Mentira (1889)

No século XIX, a literatura era o “instantâneo” capaz de codificar com clareza a realidade social. Hoje,  a fotografia revela de maneira privilegiada como nossa interlocução com o mundo acontece. O fenômeno selfie, p ex. é um indício que coloca a fotografia no centro da visualidade, indicando uma nova forma, muito particular, com que dialogamos com o mundo presente. Assim também a forte incidência de um realismo fotográfico em diversos campos da imagem – jogos, séries, publicidade e nas próprias Artes Visuais, coloca a fotografia num lugar de destaque na construção de nossa experiência estética contemporânea.

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OS PARADOXOS DO DESENHO: NOTAS PARA UMA EPISTEMOLOGIA

PAU MARINELLO (detalhe da série “Brave New World”) | mixed media sobre papel

Parte do conteúdo teórico a ser ministrado no Workshop“Figura Contemporânea” (Porto Alegre | 28 de março, 04, 11 e 18 de Abril | 2017) Mais informações aqui!

 

O Desenho opera mediações entre inúmeros paradoxos, desde o lugar do próprio desenhista – um espaço entre duas experiências: a experiência que advém no momento de ver; e outra, aquela que deseja provocar no olhar do expectador. O objetivo último do desenhista é processar (recriar plasticamente) a experiência visual que recebe, de modo a fazer conhecer ao espectador também essa experiência. Assim, desenhar é viver e produzir experiências. Continuar lendo OS PARADOXOS DO DESENHO: NOTAS PARA UMA EPISTEMOLOGIA

DESENHO: A coisa sem conceito | Parte 1

Abstracting-I-tríptico

Parte do conteúdo a ser ministrado na Oficina
“FIGURA CONTEMPORÂNEA:  Desenho & Modelo vivo” (Curitiba | 12, 13 e 14 de Maio | 2016)

Eugène Delacroix dizia que o bom desenhista era aquele capaz de “desenhar um corpo caindo de um edifício, antes que chegasse ao chão”.

O que queria dizer não tinha a ver com velocidade no traço ou rapidez de coordenação. Ele falava de síntese. Ou seja, o bom desenhista é capaz de captar no olhar o que há de mais “essencial” e característico da forma humana. Esse conteúdo essencial pode não passar de três ou quatro traços (vide os desenhos de Rembrandt, Boucher, Daumier, Goya e Egon Schiele, por exemplo). São poucas linhas ou “manchas” que qualificam a forma e conferem “função” a ela. Continuar lendo DESENHO: A coisa sem conceito | Parte 1