RETRATO | Anatomia & Realismo Contemporâneo

Dentre as expressões artísticas, o Retrato é, sem dúvida, a mais icônica. Utilizado por metonímia como sinônimo de “representação”, já no período anterior à era imperial, os romanos cultivavam na retratística um impressionante realismo. Este fato constitui um curioso “anacronismo”, se supormos que o ferramental e a disposição subjetiva realistas tenham se dado apenas a partir das condições criadas no Renascimento, ou apenas no século XIX (conforme aprendemos com Erich Auerbach). Porém, escritores da antiguidade já dedicariam estudos ao tema, tamanha era a autoconsciência do significado do Retrato – tanto na esfera pública, quanto privada. Essa pregnância temática garante-lhe autonomia de categoria plena dentre as expressões artísticas, e assim como o “nu” – o Retrato pode também ser considerado uma “forma mesmo de arte” (vide Kenneth Clark).

Retrato romano do imperador Augustus (63 a.C/14 d.C.)
Retrato romano do imperador Augustus (63 a.C/14 d.C.)

Mais do que outras, porém, a retratística traz consigo um perigo: a confusão entre os sistemas de “representação” e “apresentação”. Com seu poder de atração e capacidade de trazer à tona características físicas e psicológicas, retratados normalmente confundem-se com seus retratos. De um retrato de fulano, pode-se dizer: “é fulano”. Um “retrato falado” pode incriminar um suspeito de crime. Em seu próprio retrato, os sujeitos se reconhecem – quer dizer, identificam-se a tal ponto que o retrato passa a funcionar como referência da pessoa, e não o contrário. Vide a obsessão contemporânea dos selfies, onde a imagem se torna o objeto da experiência, e não o contrário. De fato é imanente no Retrato a presença do retratado, o que torna difícil essa distinção.

Vemos exemplo disso no famoso livre O retrato de Dorian Gray (1890), no qual Oscar Wilde concebe através um retrato que se torna espelho moral do pintor. Outro exemplo, de grande força e sensibilidade, está na segunda parte do livro O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo (1951), denominada “O Retrato”. Nestes capítulos, Veríssimo revela o quanto a imagem impõe-se à consciência dos sujeitos, afirmando a autoridade do retratado por meio da solenidade (ou aura) própria à pintura, oriunda de certa força misteriosa presente na  efígie. Através de seu retrato pintado a óleo pelo amigo Pepe, Dr. Rodrigo Cambará – personagem central da obra – conjuga uma aura quase mágica, cujo espectro ronda constantemente ao longo de algumas centenas de páginas, num quase ensaio da constituição psicológica do personagem. Estranhamente, na medida que cria uma esfera de poder ao retratado, o retrato exaure o artista que o executou: o pintor espanhol Pepe passa a desconstruir-se enquanto sujeito após tê-lo pintado. O retrato é a sua “obra-prima”, seu sucesso jamais se repetirá, e tudo o mais que produz sofre por efeito de comparação.

ANNEMARIE BUSSCHER, 2011 |"Self Portrait XII" (óleo sobre tela, 160x120 cm)
ANNEMARIE BUSSCHER, 2011 |”Self Portrait XII” (óleo sobre tela, 160×120 cm)

Este estranho poder do Retrato é também manifesto nas “estátuas jacentes” – expressão escultórica tumulares, bastante comum a partir da Idade Média, onde o morto era tomado como modelo, servindo a estátua como um substitutivo de sua presença física, ou de sua autoridade moral, no caso das efígies de reis, imperadores, etc.

“Todo retrato pintado com sentimento é um retrato do artista, e não do modelo”.

Esta frase de Oscar Wilde, mereceria um complemento a propósito: “Todo retrato pintado com sentimento é um retrato do artista, e de como ele vê a si próprio…”, ou seja, deriva de uma percepção subjetiva, uma realização imaginária do outro, não sendo portanto justa a afirmação de que o “retrato de fulano é fulano”.

O que o desenho de Retrato faz é apresentar de forma organizada as percepções do desenhista; trata-se sobretudo da apresentação de uma forma até então inexistente (e que por isso não pode representar ninguém). Para além da técnica necessária, deve-se saber que o desenho não “representa” o desenhado, e a partir disso, assumir que se trata de elaborar plasticamente a visão de seu objeto de referência: seja o retrato de um parente, de um amigo, ou um autorretrato – será sempre apenas um Retrato.

A origem latina da palavra é retrahere, onde re = “para trás”, e trahere = “tirar, puxar”. A união dos dois termos indicaria algo como “tirar fora” uma imagem. Este significado, se lido pelo sentido de mimesis (espécie de duplo do modelo, uma “cópia” dele) faz com que o Retrato perca toda a força expressiva, senão sua própria substância artística.

Mais do que tirar de um lugar e por em outro, o Retrato é reconstituição de traços que imaginariamente compõem uma percepção projetiva do artista em re(L)ação aos sujeitos de seus afetos – nunca deve se reduzir à aferição técnica de medidas proporcionais.

Enquanto percepção subjetiva do artista, o Retrato não tem propriamente o poder de “representar” – mas o de propor indicações ou instâncias de “revelação”. Uma posição política pode nos representar, por exemplo. Nela eu reconheço, senão a totalidade, ao menos parte do que sou, e posso me identificar pela complexidade de uma plataforma de proposições econômicas e sociais. Não somos somente aparência; não podemos ser efetivamente representados apenas através de projeções planas feitas de tinta. A força expressiva vem na medida da mímesis, mas sua realização depende de uma série de contingências não subsumidas pela técnica – quando esta é superada no imprevisto do estilo, nas lacunas da intenção artística: é ái que a “verdade” do retratado se mostra; onde “não se espera” que certa verdade representativa de nós mesmos aparece.

Segue uma série de retratos de artistas contemporâneos (encontre aqui mais imagens):

OLIVIER DE SAGAZAN, óleo sobre tela (baseado em fotografia de performance do artista)
OLIVIER DE SAGAZAN, óleo sobre tela (baseado em fotografia de performance do artista)
TANER CEYLAN, 2009 | "Still-life" (óleo sobre tela, 140x200cm)
TANER CEYLAN, 2009 | “Still-life” (óleo sobre tela, 140x200cm)
ELOY MORALES, 2013 | "Francisco with Butterflies" (óleo sobre tela, 160x160 cm, em colaboração com o performer Paco Nogales)
ELOY MORALES, 2013 | “Francisco with Butterflies” (óleo sobre tela, 160×160 cm, em colaboração com o performer Paco Nogales)
PATRICK RIGON, 2015 | "O véu" (óleo sobre madeira)
PATRICK RIGON, 2015 | “O véu” (óleo sobre madeira)
GOLUCHO, 2006 | "Retrato de insomnios" (lápis e aguada, 104 x 140 cm)
GOLUCHO, 2006 | “Retrato de insomnios” (lápis e aguada, 104 x 140 cm)
JAVIER ARIZABALO | (óleo sobre tela)
JAVIER ARIZABALO | (óleo sobre tela)
DORIANO SCAZZOSI | "Autorretrato" (óleo sobre tela)
DORIANO SCAZZOSI | “Autorretrato” (óleo sobre tela)
GOTTFRIED HELNWEIN, 2011 | "The Disasters of War 28" (óleo e acrílica sobre tela) 201 x 163 cm)
GOTTFRIED HELNWEIN, 2011 | “The Disasters of War 28” (óleo e acrílica sobre tela) 201 x 163 cm)
COLN CHILLAG, 2012 | "Grandma Grandpa" (óleo sobre tela, 24 x 18 in)
COLIN CHILLAG, 2012 | “Grandma Grandpa” (óleo sobre tela, 24 x 18 in)

 

Imagem da capa:

CRAIG WILLYE, 2012 | “Dame Kelly Holmes (óleo sobre tela, 1728mmx1152mm)

 

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