[PROCESSOS POÉTICOS 4ª ED] TERCEIRA E QUARTA AULAS | DESVER: A EXPERIÊNCIA VISUAL

A minha musa foi a destruição

MALLARMÉ
ANGE BELL, óleo sobre tela

Identificando identificações para desidentificar

Falamos sobre como a experiência foi introduzida na história da arte – a experiência de quem testemunhou primeiro os eventos a partir de uma subjetividade moderna – a experiência do primeiro sujeito, nesse sentido: o artista. No Módulo 2, nosso tema será a “estrutura ontológica da experiência”, para o que nos valeremos da Psicanálise – iremos mais fundo no sentido de compreender a extensão da experiência num nível psicanalítico… Mas para chegar lá, será preciso analisar a questão da identidade.

Aqui nosso tema é a “estranheza”, da qual a vida do artista está (e deve estar) repleta – mas que no entanto, é escorraçada e perseguida das convenções, ficando à margem de  todo espectro da vida social. O estranho precisa ser, cada vez mais, um tema da arte e da filosofia. Como é que ele aparece? A partir da deflagração do óbvio: a estranheza é produto elaborado da obviedade – e obviedade é tudo aquilo que foi excessivamente exposto, por isso está próximo demais; já não podemos vê-lo.

Junto da avaliação qualitativa do fenômeno estético, perdeu-se sua estranheza constitutiva. A “estranheza” não é produto apenas da combinação (justaposição) de opostos ou diferentes – mas da dissolução inconsciente da estrutura da linguagem. Uma imagem IA, seja qual for, atua em parte por reconhecimento ou associação algorítmica (cruzando o comando inicial dado pelo usuário com os bancos de imagem que o software tem acesso), e em parte por IA, buscando antecipações de padrões e criação de novos léxicos – daí realmente parecer simular que “pensa”. Toda a sua lógica, portanto, vai no sentido associativo, combinatória, aditivo; quando a arte, muito por ser um processo em grande parte inconsciente, vai no sentido oposto – de casualidade, estranhamento, desagregação.  Só pensando a arte como um produto de técnica e imaginação se pode confundir essas imagens com produções essencialmente artísticas. Depois do Modernismo e dos questionamentos pós-modernos, a arte não constitui “domínio de uma linguagem expressiva” – isso é apenas o abecedário do artista; a arte consiste em certa desarticulação da linguagem enquanto instrumento comunicacional de representação (no sentido, por ex. da fotografia de registro). Por isso, não se bastem em “reproduzir o real”, “copiar um modelo”, etc. – todas essas expressões que inviabilizam uma compreensão mais pertinente e profunda da arte. Quando é essa a tarefa que se impõe ao artista, pode-se lançar mão daquele argumento incômodo: mas isso a fotografia já faz! Esse argumento é sempre ruim, uma vez que a síntese gráfica (plástica) não tem nada a ver com a síntese fotográfica (mesmo que o objetivo do artista seja mesmo apenas “copiar” uma fotografia), mas quando o artista se empenha somente em reproduzir imagens fotográficas, está de fato condenado a disputar com a foto.

O desaparecimento da estranheza está diretamente relacionado à diminuição da interferência da singularidade o humano. Essa é uma condição do capitalismo: desde o fordismo toda diferença é traduzida em igualdade – para acumular é preciso vender mais, para vender mais, é imprescindível mecanizar o processo – e o que a máquina faz, em larga medida, é igualar os produtos, de modo a atingir grandes públicos, os quais só são possíveis dado uma grande identificação. Para que exista identificação em muitos consumidores, não apenas os gostos devem ser idênticos (identificados): os próprios produtos devem eliminar de si, ao máximo, as diferenças, o caráter específico, a singularidade – numa palavra, a estranheza. As legendas dos próprios produtos acusam “contem aroma artificial da fruta” “sabor igual ao original”, “imagem meramente ilustrativa”, etc. No terreno da estética, isso apareceu de forma clara na Art Deco, estilo que coincide justamente com a solidificação da indústria cultural, cada vez mais uniformizante (hoje em escala global). Os produtos do consumo – inclusive pop stars, celebridades, etc. operam de modo a buscar amplos espectros de identificação em seus públicos e, nesta medida, os confunde em uma mesma categoria: “consumidores”.

ELENA STEINER, óleo sobre tela

Por isso, a arte é o anti-produto por excelência; sua função é precisamente o contrário disso: deve transformar consumidores em sujeitos; extrair especificidades da generalização; possibilitar a revelação daquilo que não encontra identificação no mundo. Nesse contexto, os artistas têm um ofício duplo: como são os responsáveis pelas imagens, respondem pela criação das imagens com que os sujeitos irão se identificar. Cabe a ele, portanto, proporcionar o inverso: destituir os afetos que criam as identificações. Embora as identificações sejam inevitáveis e mesmo necessárias para subjetivação dos seres, como veremos no próximo módulo, elas são também entraves ao pensamento criativo. O que faz com que nos identifiquemos com algo é um afeto específico; o problema é que, se é idêntico, é idêntico fora de nós – valores, crenças, discursos que constituem aquele eu supostamente “ideal”. Criamos um laço com esse exterior, e nos esforçamos por corresponder à suas exigências; e esse laço se funda em afeto. As identificações são coladas pelo afeto (não são racionais) – daí a função da arte de os desmobilizar, uma vez que a arte é a área que trata do mundo sensível.  

Estranhar a nós mesmos e a tudo o que nos cerca nos transforma em objetos de reflexão também: faz com que nos tornemos o outro de nós mesmos. Esta ideia é importante porque arte, como sempre insistimos, não é sobre o artista. Não importa tanto aquilo que ele quer expressar – importa como aquilo irá impactar o outro. É sempre a outro que nossa produção se endereça – nem que esse outro seja o próprio produtor (pois aquele que em nós deseja é diferente daquele que em nós realiza, e ainda daquele que avalia).  A arte é sempre endereçada ao outro, e o conhecimento do outro começa com nosso próprio estranhamento: o que significa minar as identificações. Explico mais didaticamente:

  1. O reconhecimento do outro implica um processo de identificação com ele: onde identificamos nele um terreno conhecido com o qual podemos dialogar. Esse campo de reconhecimento levanta o que há de idêntico entre nós e ele – aquilo que ambos possuímos. Este é o campo do saber comum.
  2. Mas, desse modo, apenas se sabe o que há de igual a ambos: o que, sendo comum, não é de um, nem do outro; não distingue propriamente nenhum.
  3. O que buscamos enquanto artistas não é apenas o “reconhecimento” do outro, mas promover o (auto)conhecimento de nosso público; isso implica desidentificação. Só assim é possível conhecer o que é singular de cada um para além do que é idêntico a ambos – porque, se a partir da igualdade nos reconhecemos, é na diferença que, de fato nos conhecemos.
KSENYA ISTOMINA, “Distance“, 2022 | óleo sobre tela (120 x 85cm)

Estranhar o aceito e aceitar a estranheza

Uma parte de mim é multidão, outra é estranheza e solidão.

FERREIRA GULLAR

Dissemos antes que, a fim de se autorizar artista, o artista precisa se autorizar como pessoa – o que equivale dar à sua singular estranheza um estatuto de verdade. Todos somos “estranhos” porque todo e qualquer sistema de ordem, todo e qualquer padrão de normalidade é meramente convencional; a convenção, no entanto está tão integrada ao costume, que seu mínimo desvio nos gera estranhamento; logo, recusa. O costume faz da realidade algo esquisito, na medida em que torna a convenção em régua de normalidade. Essas abstrações convencionadas apagam editam os eventos e apagam singularidades – como se estas devessem se submeter, e não o contrário.

O artista é, de certo modo estranho, invasor de sua própria casa, seu lugar é o de estrangeiro na própria cultura – em todas as culturas. Por conta desse lugar ambíguo que precisa manter em relação à cultura, a sociedade concede a tal “licença poética”, justamente porque se pressupõe que o artista é obrigado a conviver com, e aceitar a estranheza. Que quis dizer Pessoa com o seu eterno: navegar e preciso, viver não é preciso? Navegar é nunca chegar a lugar nenhum, é estar sempre entre o partir e o chegar, entre a dúvida e a certeza, é assumir que o cada volta do mundo é uma nova volta.

Por que o artista precisa assumir essa estranheza e, mais ainda, se fazer estranho, e propositalmente se distanciar um pouco do mundo. Por que essa radicalidade de pensamento e ação? Porque não existe meia-verdade. E porque a história da arte é, na verdade, a história da ruptura com a convenções. 

Capa: SARA GALLAGHER, High Bar, 2022 | panpastel e grafite sobre papel (21”x21)

Publicado por Gustavot Diaz

Artista visual e escritor, co-fundador do espaço artístico MÍMESIS | Conexões Artísticas em Curitiba, e ministrante do curso Processos Poéticos. Vive atualmente em Porto Alegre (RS).

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