[PROCESSOS POÉTICOS 4ª ED] SEGUNDA AULA | AS DIMENSÕES DA IMAGEM

Iniciamos falando do “autorizar-se” como artista; agora alguns apontamentos acerca da recepção e crítica da produção se faz necessário – a começar por um pressuposto básico: elogios estragam o artista.

XOOANG CHOI, “Sheddings”, 2014 | mixed midia, vitrine, ferro e iluminação fixture (161 x 76 x 190 cm)

Porque são direcionados não a seu trabalho, mas à pessoa do artista, elogios servem muito bem a quem elogia; ao elogiado, envaidece e confunde quanto à qualidade do que produz. Tanto mais por estarmos num terreno pouco apreciado em nossa cultura e que, por isso mesmo, está sempre na dependência de questões de “gosto pessoal”, ou seja, a uma avaliação estética absolutamente sem critérios.

Ao contrário do gosto, crítica indica uma resistência saudável que “refina o cálculo estrutural” do nosso trabalho. Dói – mas sofrimento faz parte do processo poético, é parte substantiva dele. A dificuldade em se lidar com críticas se deve, talvez ao fato de que depositamos muito investimento subjetivo no trabalho: o artista recebe a crítica como se fosse dirigida pra ele, artista. Toda crítica é sobre o trabalho, sobre a produção artística, e é bom que o seja – significa uma celebração da liberdade e do pertencimento gerado por aquilo que foi socializado.

Todo trabalho artístico deixa de pertencer ao artista quando é compartilhado. Quem critica, sente-se no direito de criticar porque aquilo que viu passou a fazer parte de suas experiências também: é um pouco dele. A sutileza de encarar as críticas assim nos garante o entendimento de que toda crítica é uma espécie de elogio – ela prova que o trabalho foi apropriado, que alguém se deixou tocar por ele. Afinal, fez efeito. Como a produção artística é produto de um manancial simbólico comum, como a arte é oriunda da dimensão pública, não privado, ela cresce e melhora sob o livre exercício de múltiplos pontos de vista. A crítica – mesmo a mais leviana observação de um frequentador ocasional de museus é, por vezes a única forma com que o público foi ensinado, a única resposta que tem diante de uma obra. A complexa interação com o fenômeno estético requer, no mínimo repertório, além de sensibilidade apurada. Mais do que isso, exige um desapego e um comprometimento com o espiritual bem pouco comum numa sociedade de consumo, onde apreciação confunde-se com precificação. Também a solidão, parte do ofício, tende a isolar o artista de interlocuções que treinem o diálogo crítico, calibrando expectativas sobre a resposta do público – como um cantor sem a caixa de retorno a partir da qual pode julgar a altura da voz.

A crítica faz parte da obra, ajuda a constituí-la enquanto produção do sensível, pois o trabalho artístico não é sobre ele, artista, é sobre o outro, sobre a afirmação da impossibilidade mesma da comunicação intersubjetiva, sobre a múltipla e  equívoca interpretação da verdade.

O verdadeiro tema de todo trabalho artístico é compartilhar com o outro aquilo que nos faz enigmas à procura de esfinges que emprestem voz à nossa indefinição comum.

ANDERS KRISAR, sem título (2012)

Não é sobre o artista –seu sofrimento, sua percepção íntima e particular do mundo. Por que, afinal, a percepção do artista seria melhor e mais digna de ser compartilhada? Por que seríamos obrigados a aturar sua dor, nós que já possuímos causas suficientes de sofrimento? Quando vejo uma obra artística não procuro nela senão a mim mesmo e o que me qualifica como sujeito pertencente ao mesmo jogo simbólico; não procuro nela o artista, a sua pessoa em específico – procuro ali a minha subjetividade. Ao deparar com um objeto que descortina algo desconhecido em mim, aquilo me atualiza esteticamente; sei que estou diante de um objeto artístico. Quando me dou o trabalho de ir a uma exposição, o faço para me diferenciar de mim mesmo – para deslocar meu ponto de vista subjetivo e, portanto alterar meu lugar em relação à toda cultura.

A melhor prática para se relacionar com a crítica é considerar que ela tem a ver com sua recepção, não com o artista. Assim como o crítico deve aprender a não transformar ofensa em crítica, o artista aprende a não transformar uma crítica em ofensa. Deste modo, vê-se a crítica  como a contribuição de um outro que se sentiu livre o suficiente para reagir a um trabalho que lhe despertou interesse, lhe afetou de algum modo. Afinal, é exatamente isso que o artista quer: não se dá o trabalho de produzir, senão para ser visto. É razoável ser tolerante com os eventuais juízos emitidos pelo público e aprender a dialetizar a crítica, fazendo-a operar como síntese de uma triangulação: obra (tese) – crítica (antítese) = síntese (qualitativamente superior). 

Se a produção não sobrevive à crítica, então a crítica apenas adiantou o que o tempo iria fazer de qualquer modo:  porque o pior juiz é o tempo. Outrossim, se a obra ultrapassa a crítica é porque o crítico se equivocou; do contrário, a crítica foi bem merecida e a única coisa a ser feita é aceitar.

JOHN ROBINSON, óleo sobre tela

Agora, o mais difícil: lidar com elogios: estes abaixam o padrão não só individual, mas geral da produção, sob a seguinte lógica: o elogio a trabalhos ruins coloca os trabalhos muito bons na esfera do “excepcional”, ou seja, os retira do campo da normalidade; se digo que um trabalho ruim é “muito bom”, quando estiver diante de um trabalho realmente  muito bom não terei mais como qualificá-lo, senão como extraordinário, ou seja, algo está “acima de qualquer juízo”. Isso incentiva os artistas a abandonarem o rigor na execução da obra; como consequência, o padrão geral vai se degradando e uma régua baixa passa a ser o nível geral – o que aplaina o padrão da crítica, logo, da produção como um todo. Igualar artistas ruins e bons, experientes e inexperientes, ou fingir que não existem critérios prejudica ambos: os ruins deixam de se esforçar (afinal, já foram equiparados aos bons); os bons perdem referência do que são, pois a má comparação desensina o público quanto à qualidade artística.

Enfim, a melhor prática é aceitar críticas e estar imune e prevenido quanto aos elogios. A boa crítica em geral demonstra interesse real no trabalho; já o elogio é sempre interessado – mas seu verdadeiro interesse é na pessoa do artista.

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Este foi o conteúdo introdutório; o restante da aula foi registrado nas gravações da 4ª edição do PROCESSOS POÉTICOS. Programa com o plano de ensino completo aqui!

Publicado por Gustavot Diaz

Artista visual e escritor, co-fundador do espaço artístico MÍMESIS | Conexões Artísticas em Curitiba, e ministrante do curso Processos Poéticos. Vive atualmente em Porto Alegre (RS).

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