Texto de curadoria da exposição AUTO retrátil, em cartaz no Museu de Arte de Porto Alegre a partir de 09 de Novembro de 2024. Artistas Liana d’Abreu e Tuchi Niederhageböck. Texto e curadoria: Gustavot Diaz
Todos produzem autorretratos na expressão de cada preferência: o sapato que combina com a calça, os livros de cabeceira, a pose diante do espelho: compomos diariamente um “estilo” que portamos e que, por sua vez, porta nossa identidade. Tal busca por identificação (no fundo, uma busca por “idênticos”) é o que nos instala na ordem simbólica, garantindo lugar entre os outros. Assim, de uns a gente se torna “igual”; de outros, a gente se torna “o outro” – outro que existe na exata medida da confecção daquela máscara identitária (sem ela, nenhum outro seria possível).

Esse processo é um pouco semelhante ao procedimento originário do desenho: a contradição figura/fundo – contraste que possibilita a própria visualidade (a Monalisa não existe senão como parte de uma composição maior que engloba o fundo, muitas vezes ignorado). É impossível pensar uma imagem fora do contexto de outras imagens; o que aparece como contradição (figura X fundo) são extensões indissociáveis de uma mesma forma. Não se trata de uma dualidade: para o olhar é uma coisa só.
Voltando ao nosso tema, quero dizer mais ou menos que a máscara da identidade existe também à medida do outro: quando supomos vesti-la, é ao outro que (des)cobrimos – outro que convive dentro, não fora de nós, como uma “alteridade íntima”. Isso porque é da matéria do que é comum (o simbólico) que produzimos todas as máscaras. A identidade pode ser comparada a uma chave que nos dá acesso socialmente, só que essa chave, enquanto aparece para nós de dentro pra fora, de fora para dentro é na verdade uma jaula que nos aprisiona às demandas alheias… A gente nunca coincide com os discursos que estruturam nossa identidade: são uma roupa que nos veste mal.

Por isso, lá onde a gente se estranha é que a gente mais se reconhece.
O problema é que se a máscara da identidade caísse, não encontraríamos nenhuma “verdade” do corpo em sua nudez, nem nada desse tipo: simplesmente não veríamos nada. É impossível arrancá-la, ela nos constitui subjetivamente, organiza nossa experiência de realidade. A identificação é necessária, mas pede algo em troca: sequestra nossa singularidade. É uma capitulação de nós mesmos.
Um autorretrato parece ser uma busca nesse sentido, um apossar-se do é da coisa, que Clarice tentou captar – não um “é” para além das aparências, mas sim uma realidade da própria aparência, oculta tão à superfície que se torna invisível. O que LIANA D’ABREU e TUCHI NIEDERHAGEBÖCK iniciam nessa busca radical ao abismo de si, revela que não há um si mesmo: esse ‘si’ é menos próprio do que desejamos.

Quando olhamos o abismo da alma ela não nos olha de volta – na tensão da interioridade encontramos redes de afeto, família, amigos, amores, todo o repertório afetivo que, na realidade, nos guia. Basta que estejamos com olhos e sentidos ativos.
Selfies
Na era das selfies, em que a produção (e reprodução) de retratos é instantânea, a ressignificação de tal gênero é necessária, começando-se por esclarecer o equívoco de se esperar que um retrato nos mostre quem realmente é o retratado. A imagem é apenas um traço do ser, talvez o mais precário e instável, não dá conta de expressar sua totalidade. O que ocorre é algo bem diferente: uma vez que as formas estéticas, ao dimensionar o campo da experiência humana, inventam o ser e o estar no mundo, o retrato inventa o retratado (e na mesma medida, o próprio autor).
Retrato e autorretrato

A origem latina retrahere (re = “para trás” + trahere = “tirar, puxar”) indica algo como “tirar fora”, decalcar uma imagem. Mas, se lido e executado pela chave da ‘mímesis’ (cópia ou duplo do modelo), o retrato se arrisca a perder força expressiva, senão seu próprio “coeficiente artístico”. Mais do que tirar de um lugar e por noutro, o retrato ele reconstitui a percepção do artista em relação aos sujeitos dos seus afetos: nunca deve ser reduzido somente à aferição técnica de medidas proporcionais.
Retrahere, contudo, tem também uma conotação de “retirar, reconsiderar, voltar atrás”. O título AUTO retrátil, ao reforçar a conotação de retraimento, insinua o movimento duplo entre exterior e interior que simboliza todo o processo de formação subjetiva a partir da imagem.

FICHA TÉCNICA:
Artistas | Liana d’Abreu
e Tuchi Niederhageböck
Curadoria | Gustavot Diaz @gustavotdiaz
Assessoria de imprensa | Carlos Souza
Abertura | 9 de novembro de 2024 (sáb) 11h às 13h
Visitação até 06 de dezembro (seg a sex), das 9h às 17h
Museu de Arte de Porto Alegre
(Antigo Paço Municipal)
Praça Montevidéu, 10
Visitação gratuita
Realização | Prefeitura de Porto Alegre
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