Em quinze tópicos curtos, elaborei alguns ensinamentos que o desenho me trouxe nesses trinta anos de prática desenhística.
1. O desenho é uma forma de lapidar o diamante que brilha onde o carvão sonha. A diferença entre um desenho e outro é o modo com que manchas se relacionam no suporte – manchas que já estavam no carvão e que, costuradas umas às outras no papel, fazem a verdade da forma aparecer. Na vida é assim também: os elementos da criação estão todos à nossa volta: quando encontram sua melhor articulação, a arte acontece.
2. Ver é uma experiência; o desenho é uma forma de exorcizar vivências que nunca poderão ser desfeitas: ao simbolizá-las, o desenhista reescreve a narrativa, “transmudando o acaso em destino”*.

3
O olhar é uma conquista. Não vem de graça, ninguém nasce com ele; é resultado da soma do que se viveu. O desenho, assim, é um meio de transformar o vivido em experiência.
4
Só se desenha o que se viu porque só a experiência que passou é sentida. A técnica do desenho dá o sentido da experiência da visão: o mundo visível deixa de ser apenas uma informação, uma coordenada para me situar; se torna fantasia que orienta o desejo.

5
Quem um dia viu, está condenado a conviver para sempre com o visto. Se desenhei, vivenciei tal experiência transformando-a em imagem. Inseri-la no plano comum do simbólico, de modo a compartilhar a experiência, é o ofício do artista. Desenho é partilha: tanto alimenta olhos alheios, quanto diminui o fardo do desenhista.
6
Uma regra do sombreamento: quanto mais perto da luz, maior o contraste – a luz ilumina, mas intensifica sombras; sombras essas que alteram o valor da luz. O vetor fundamental de toda visualidade é o “contraste” (figura/fundo, claro/escuro, proporção etc). Há aí uma outra lição: a luz não existe sem trevas, assim como o bem não existe sem o mal.
7
São dois os tipos de sombra e dois os tipos de luz: sombra natural e projetada; luz natural e refletida. Eis aí toda teoria de sombra e luz. A luz refletida é a mais interessante, incide dentro da sombra natural e pode re-refletir (a depender da intensidade) também no interior da sombra projetada. Não apenas as trevas evidenciam a luz – a luz está, de fato, nas trevas. As regras do desenho ensinam que bem e mal são apenas relações de contexto.

GUSTAVOT DIAZ, Selfie portrait, da série ESCUTA | 2020
8
No desenho, não importam intenções, apenas efeitos expressivos. Na vida também – boas ou más, as intenções são relegadas a desaparecimento.
9
No registro da tradição artesanal, a mão do mestre ensina mais que a boca. É o “exemplo” o que o mestre mobiliza ao ensinar, não a enunciação teórica. Os olhos aprendem mais do que os ouvidos.
10
Depois que se aprende a desenhar, nunca mais se desaprende. Se desenhei é porque vi. Se vi, é porque meus olhos estavam abertos; quando isso acontece, eles nunca mais se fecham.

GUSTAVOT DIAZ, Rainha dos Ratos | 2020
11
O desenho é uma conversa entre olho e papel. Não é um, nem o outro, é o diálogo entre ambos. Como no amor: ninguém deve ser protagonista. O que realmente sustenta as relações são o diálogo, a dança entre os amantes, cuja coreografia compõe a herança de ambos, que é a história de nenhum.
12
O desenho não começa diante do modelo, nem da folha em branco: começa no momento em que abrimos os olhos pela primeira vez. Também não acaba quando o trabalho termina: o desenho começa para não ter fim, e seu destino é sobreviver ao desenhista.
13
No começo, o desenho deve advir de “fora para dentro” – do mundo exterior para o interior. Você treina a visão reproduzindo formas do mundo, trazendo-as para dentro de si. Quando a técnica está dominada, a criação demanda trajeto inverso: requer que o sentido seja o de “dentro pra fora”, procurando expressão ao que amadureceu internamente.

14
A poesia reside nas coisas do mundo, principalmente naquelas que vivenciamos. Do mundo se tira também os temas do desenho. Que relações as coisas mantêm entre si? Aí está o fazer poético: ouvir o que as coisas conversam e contar aos outros, como num jogral.
15
O desenho é um ofício difícil porque julgamos estar no controle de nossa visão. Uma vez no escuro, é difícil olhar pra luz… Quando aprendemos a ver, percebemos o quanto não víamos; o mundo se transforma, assume perspectiva, saturação, volumetria: altera nossa posição diante do mundo, exige ocupar um novo lugar. Um lugar onde um novo afeto foi ativado e a dimensão estética reconquistada.
[1] * RICOEUR, Paul. Percursos do reconhecimento. São Paulo: Loyola, 2006 (p. 114).


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