A arte do fazer

Se você pensa no escândalo do salão impressionista – época em que as exposições como conhecemos hoje sugiram, fica claro que o público ia ao Museu para ver o que o artista tinha a dizer (“o que ele vai aprontar agora?”). Hoje, pessoas se interessam mais pela sua própria experiência – e encontram nas mídias sociais espaço permanente e gratuito de exposição, com muito mais alcance do que os museus, além da vantagem de serem direcionadas especificamente ao público desejado.

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Então, as artes visuais vêm perdendo hegemonia para outras formas de registro e narrativa, desde o século XIX (como a fotografia, depois o cinema). Considere agora outro ponto: esse discurso inventado na Europa no século XIV – conhecido no ocidente como “arte”, se tornou cada vez mais sofisticado, principalmente após a década de 70. Desde lá, a arte recria e complexifica seus próprios meios, acarretando um significativo esvaziamento da capacidade em mediar afetos (análogo ao que aconteceu com a poesia: quando os requintes do estilo parnasiano se tornaram formalismo puro e deixaram de agradar, veio o verso livre; mas após a onda de experimentalismo desenfreado, grandes poetas tornaram a buscar vitalidade nas formas tradicionais).

GRZEGORZ GWIAZDA | escultura

Isso talvez ajude a explicar tal perda de hegemonia: o lugar antes ocupado pelas artes visuais na mediação entre os sujeitos e o mundo é hoje operado por outras formas de linguagem. Evidência absoluta disso é a onipresença do áudio visual na cultura contemporânea (pergunte-se: quantas exposições de arte eu fui ano passado, e quantos filmes e séries assisti?).

Museus só enchem quando a arte é convertida em espetáculo (Bienais, Feiras artísticas, Salões, etc). Esse afastamento do público é sinal de uma reconfiguração dos lugares tanto do “museu”, quanto do “público que frequenta museus”. O museu compreendeu isso a tempo e alterou seu estatuto – sua prioridade, pelo menos nas últimas duas décadas, são ações afirmativas e educativas (até a velhíssima Academia Brasileira de Letras tem mudado, devagarinho…). O público que frequenta (ou frequentava) museus, também mudou, justamente porque a arte ocupa hoje outro lugar: há quem deseje ser reconhecido entre uma elite intelectual, quem deseje fazer um social no meio a que pertence, quem busque contatos e ostentação, e ainda os que estão ali só para ver arte mesmo (sem dúvida, a minoria). Não me entendam mal: tudo isso é legítimo. Não quero opor um “interesse mesquinho” contra um “interesse desinteressado” do tipo ars gratia artis.  Até porque acho que nem um, nem outro jamais existiram.

Todo mundo tem uma relação com a arte e não precisa ostentar isso indo à vernissages – ela está aí, na vida cotidiana: quando se cria uma melodia assoviado, quando se vê uma pareidolia nas nuvens ou ao se sensibilizar com uma situação que ninguém percebeu.

Perceber é receber estímulos e a arte é justo o instrumento que faz a intermediação, ou seja, que media ou “traduz” afetos e os humanizam, incluindo-os no terreno da cultura. Mal comparando: é como a lapidação do diamante que nos permite apreciar a gama de luzes que a pedra bruta não dava conta de exibir. Não quer dizer que a arte torna mais sofisticado o afeto, ela apenas afina esse sensor que é o corpo – afina a sensibilidade que todo sujeito possui, dando nome àquilo que chega do mundo e o afeta.   

Nosso neocórtex , estrutura do tronco cerebral, com seus bilhões de neurônios é a parte mais excitável da matéria viva do universo conhecido; mas cada célula do corpo tem receptores destinados a receber inputs do meio – ou seja, “sentir”.

Nosso corpo é o sensor mais especializado que conhecemos, um sensor testado através de milhões de anos de aprimoramento na seleção natural que, aliás, nunca serviu à lei do mais forte – sobrevive quem é capaz de melhor perceber as alterações no meio, é esse quem melhor se adapta. A seleção natural se baseia no sentir, não na adaptação.

Não é questão de arte ‘boa ou ruim’: a arte mais significativa é aquela capaz de dar um sentido aos afetos. Não precisa obedecer uma forma especifica, ou seja, corresponder àquele discurso de matriz renascentista – vide as produções da arte contemporânea, cuja vocação é ser “livre” (como poderia estar presa aos grilhões da arte tradicional que em geral os próprios artistas desconhecem depois de um século de desconstrução?).

Qualquer produção artística está apta a realizar isso na medida em que não nos faça apenas identificar e reconhecer objetos – mas, pelo contrário, nos permita estranhar as coisas e eventos cotidianos, tornando-os desconhecidos a fim de que nossa experiência no mundo se atualize, uma vez que todo instante é inédito, e todo segundo um novo possível.

GRZEGORZ GWIAZDA | escultura

É difícil definir o que seja arte, mas quando algo descortina uma dimensão desconhecida de minha própria experiência, sei que estou diante de um objeto artístico. Faz isso a obra que consegue revelar pra mim o que eu sentia sem saber, ou que me possibilite sentir aquilo que eu ainda não sentia, mas julgava saber.

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Capa: GRZEGORZ GWIAZDA | Sculptures Heretic


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