“É também com o corpo todo que pinto os meus quadros e na tela fixo o incorpóreo, eu corpo-a-corpo comigo mesma. Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro.”
CLARICE LISPECTOR, Água Viva
Tudo começou como uma busca por voltar a sentir; um desejo de reencontrar-me com o sentido dos sentidos.

Quem sou eu? Toda a História da filosofia nesta pergunta onde o eu está perdido para sempre, porque essa é uma pergunta impossível: pressupõe que exista uma resposta para o ser, pressupõe que essa resposta seja única; pressupõe que alguém seja capaz de respondê-la. Não há. Na arena espaço-temporal, o ser é relação que resulta da troca incessante entre estímulo e sensor quando – tocados pelos dedos do Cosmo, nossos sensores são ativados. A isso damos o nome de experiência. Mas o fluxo permanente da existência sensorial não se deixa capturar. E não existe outra existência senão a corpórea, a existência do corpo, onde estão “em contato” os sensores corporais e o mundo, onde dançam numa confluência simbiótica permanente. Não há limite claro onde o sensor termina, e onde o estímulo que o ativa começa – nem o que é o sensor e o que é o sentido: pensá-los é já perder a transitividade em que esses termos se conjugam.
A pergunta não é quem ou o quê sou – que demandam a suposição de um sujeito anterior à enunciação capaz de responder à questão. A pergunta é “quando sou?” – uma vez que o ser está no entre, no processo entre; no vínculo entre os fluxos do organismo e o corpo do mundo não há divisão clara.

O ser não pode ser entendido como uma unidade autônoma nesse fluxo em constante movimento; pensá-lo desde a prisão imóvel da identidade onde enganosamente se fixa é não compreender nada. Buscando a imobilidade de um conceito que o torne passível de enunciação, o perdemos para sempre.
Na ilusão dos sentidos está a única verdade – são eles que conectam meu corpo ao corpo o mundo, são eles que vascularizam esse corpo uno entre o meu e o do Cosmo: dois que são um – e revelam a concrescência entre todas as células do meu corpo e o universo. Não há estímulo sem sensor; nem há sensor sem estímulo… Estenda os braços e veja: a pele não te fecha em ti mesmo, nem te separa do mundo; aproxima e verás que é porosa – apenas um filtro que permite que o mundo penetre suavemente. O Cosmo é extensão do teu corpo, pertences a ele como a pupila pertence aos olhos; o tato, mãe de todos os sentidos, te conecta permanentemente a ele. Sem esse todo ao redor e no entorno que te nutre, não sabes quem és.

É o corpo quem educa – o corpo inteiro. Corpo-sensor do Cosmo: seu sentir é saber, sua consciência é estar em mim. O saber verdadeiro – o saber da verdade, é o saber do corpo. Afinal, quem sabe o mundo senão o sensor que o sente? Quem sabe a maçã senão a língua? Quem sabe da beleza, senão os olhos? Quem ama senão as vísceras que queimam seu incêndio, dentro de mim?
O corpo é uma linguagem que me escande como os versos de um poema; não senti-lo faz de mim um iletrado de meu eu, surdo ao diálogo com as forças do mundo; um ser inconsciente, incapaz de vivenciar a existência porque é amortecido que está nela…
Em cada um de nós há um Deus tentando acreditar em si mesmo… Ele um dia há de nos convencer de que toda possibilidade de transformação está contida na lâmina do presente. Toda revolução habita no agora deste segundo; na postura imediata do meu corpo, em cada membro, falange, em cada gesto expresso uma determinação subjetiva diante do mundo: onde está meu corpo, aí estará o meu tesouro, é desde esse lugar onde o coloco que poderei, ou não, saber… E que paisagens dispus em volta de mim? Em que equação de afetos lancei meu corpo? É esse precisamente o lugar em que quero estar? Onde destino e desejo se confundem na infinita possibilidade dos acasos?
O saber de corpo inteiro desativa a insegurança neurótica de não autorizar minha própria verdade – e é por nunca me sentir seguro com a verdade corpórea, nem ouvir o chamado do sangue (que, no entanto, soa como um alarme contínuo sob a pele) que eu me perco do instante: esse átimo de segundo que é a morada do corpo porque é o único lugar onde ele existe, pulsando com os segundos.

Meu medo não me deixa aceitar o risco do inédito, do incontrolável, imensurável chamado OUTRO – outro que ocupa o espaço do meu corpo mais do que eu mesmo; outro que me dá a medida de mim; que, com sua pele, me informa o quanto as minhas mãos são ternas, ou quanto meu gesto é brutal; outro cujo toque configura meu corpo, cuja carícia ativa meu Eros; outro que, com o seu coração, me informa do amor; outro sem o qual, sozinho em casa, meu corpo não sabe que tamanho tem.

Tudo isso começou com uma busca por voltar a sentir e de corpo inteiro banhar-me no rio dos sentidos… Mas enquanto aguardo o tão sonhado encontro comigo – quando então meu contorno se faça, amorosamente semelhança, e se preencha desse ser que se escondia entre os meus olhos e quem me via – durante a espera desse inevitável encontro comigo mesmo, eu me transformo tanto, que na hora exata… sou outro.
Imagem: GUSTAVOT DIAZ, “Semente”, 2025 | técnica mista s/ painel (100cmx100cm)
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