GUSTAVOT DIAZ

poética, corpo e experiência

Última semana para visitação da exposição Olhar Submerso, de MARCOS BECCARI, em exibição da Fundação Cultura de Curitiba. No post, segue nosso texto de curadoria…

“A fuga de Vênus” – Marcos Beccari, aquarela sobre papel, 38 x 56 cm, 2019

“Representar” água com água gera um curto-circuito no conceito de representação. Aproximar-se da obra do pintor MARCOS BECCARI exige esta consideração: não estará ali, mascarada no “representar”, a própria coisa, fingindo figurar-se? Não é água de fato o que se vê em suas aquarelas? É equivocado dizer que parecem fotografias. Tampouco “representam” rio, pedra, modelo, paisagem. Jean Baudrillard, filósofo caro ao pintor, explica: “Criar uma imagem consiste em ir retirando do objeto todas as suas dimensões, uma a uma: o peso, o relevo, o perfume, a profundidade, o tempo, a continuidade e, é claro, o sentido”.

A aquarela denuncia, mais que outras categorias, seus procedimentos técnicos: a ilusão nunca é completa. Diferente do óleo, que pode esconder suas operações (ou da fotografia que, bom lembrar, é apenas outra linguagem) por mais “realista” que seja a aquarela não faz mais do que mostrar, a todo momento, suas etapas construtivas. Desveja a figura e olhe precisamente o que o pintor oferece, o que a tinta entrega, e encontrarás manchas – algumas fluidas, outras de borda dura, colocadas nos lugares certos. Certos? Mas não será o olhar do observador quem introduz a figura e faz o rio aparecer, sendo justamente o recuo do pintor que põe essas águas em movimento?

“Hermes de Pétaso” – Marcos Beccari, aquarela sobre papel, 30 x 46 cm, 2019

A suspensão voluntária da crítica ante a imagem é um estado de vulnerabilidade. O observador nunca sai ileso: se põe ali, aliás, para ser iludido. A leitura de Sobre-posições (livro em que Beccari reúne sua produção e enuncia para ela uma chave de leitura) onde suas aquarelas acompanham o texto do início ao fim, me causou uma emoção genuína: entendi que, independente da escrita e de seu sentido, a afecção forte ali era a estética. Seu livro ilustra a própria tese: o que está para além do papel não é importante… É precisamente nessa irredutibilidade entre função e forma que a arte relativiza o valor da utilidade e do pragmatismo do consumo que submete práticas e saberes.

Talvez Beccari não esteja preocupado com o assunto; os títulos sem grande relação com as imagens evidenciam que há outra coisa em jogo. Sobrenadantes no papel não são jovens a flutuar na água: é a própria imagem, oculta na aquarela, o seu grande tema (ao modo dos pigmentos boiando no aglutinante). Imagem que “insinua”, escreve o próprio Beccari – no olhar quando este articula os efeitos imprevisíveis da água, transformando-os em forma. Não parece fotografia porque a refração da água altera inevitavelmente a forma; forma que, no entanto, a transparência da mesma água revela. À fotografia não importa fazer sentido no mundo aqui fora: é dentro da película, na lógica que ela mesma forja, que reside o interesse. Imagens são edições de nossa experiência; não se parecem fotografias (a comparação as colocaria numa linha de equivalências injusta onde o mérito de uma linguagem é copiar outra), tampouco se parecem “realidade”. São precisamente o que mostram: aquarelas.

“Cibele Reia” – Marcos Beccari, aquarela sobre papel, 38 x 56 cm, 2019

Não é à toa também o atravessamento da retratística na produção de Beccari. Inúmeros retratos a dizer-nos a mesma coisa – não estou aqui “representando” alguém fora do papel, nem qualquer referente externo; represento a pintura em si e as tensões que a dinâmica da linguagem visual faz emergir como figura. Em nenhum momento a miragem quer ocultar que o seja.

Uma imagem deflagra, por fim, como somos frágeis, suscetíveis por nos deixar enredar na prestidigitação que torna pigmento em ser; quando o esforço do artista vai todo em sentido contrário (o de tornar ser em pigmento). É claro o sentido da mítica disputa entre Zêuxis e Parrásio: a tela vencedora não “representa” nada; apenas figura a ilusão. A ilusão apenas evoca, insinua, enfim a “coisa real” – como uma música que não nos sai da cabeça: aparece fragmentada, distante, porém não deixa de estar absolutamente presente.

_____

Gustavot Diaz
novembro de 2021
Posted in

Uma resposta a “TEXTO DE CURADORIA | “ÁGUA DE VER”, EXPOSIÇÃO DE MARCOS BECCARI”

  1. Avatar de A invisível invisibilidade do visível – GUSTAVOT DIAZ

    […] Leia também meu texto de curadoria da exposição Água de Ver, de Marcos Beccari. […]

    Curtir

Deixe um comentário