GUSTAVOT DIAZ

poética, corpo e experiência

Visão e poética artística

Os vínculos sensórios – fundamentais para criação artística, são barrados pelo próprio sistema sensorial. Não é, senão “desvendo” que o olho se ativa.

Segundo a narrativa mais antiga e influente do judaísmo e da cristandade, a imagem é o primeiro traço constitutivo de nossa humanidade: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gen, 1:26). O corpo era então virtualidade e a reprodução, por conseguinte, condutor da criação, o vínculo primitivo com o Criador. Ainda na Gênesis bíblica, o fiat lux é a primeira palavra de Yahweh, separando luz e trevas, dia e noite, mesmo sem ainda haver o sol e a lua – afinal, de que outra forma seria possível evidenciar a obra criada?

SAM JINKS (escultura)

Mesmo no campo distinto da Filosofia, a visibilidade é fundante na ordem existencial, ainda que a imagem apareça negativa, igualmente como simulacro, desde que Platão associou o mundo visível à sombras, cópia imperfeita de um mundo ideal não imagético. Assim, tensionada entre physis e psyche, a experiência corpórea, sem autonomia criativa no discurso religioso, era, no filosófico, um “obstáculo de acesso ao inteligível”. Subsidiário da visualidade, o corpo visível estava cego para a verdade. Em Descartes, há um sujeito que pensa para existir, mas pensa e vê a partir de um corpo transparente a si mesmo, um corpo só função, sem carne, nem aparência. 

Em nada isso a visão é encarada como uma experiência: a imagem é desarticulada do corpo que vê; o sujeito vidente alheio à imagem vista.

É apenas no século de Goethe que a visão começa a ser entendida como dado corporal subjetivo, com a descoberta da cor fisiológica. Se analisado de forma desintegrada da vivência sensorial, descolado do sensor que lhe dá sentido, o estímulo visual gerador da “imagem” aliena-se; a imagem se transforma em obsessão paranoica. Sua pregnância na contemporaneidade parece dar-se sem que as devidas contingências do sentido da visão sejam devidamente equacionadas, sintomatizando um desequilíbrio no regime de sensorialidade que é preciso confrontar. Na sociedade constituída sob o signo da produtividade e da informação, onde a experiência é novamente impossível (Larossa, 2002), reabilitar visão e imagem como interações de um mesmo fluxo, organicamente vinculadas a um corpo, parece uma tarefa relevante.

Um primeiro resgate neste sentido seria reconsiderar o corpo em sua dimensão sensória: o corpo é um sensor, o mais especializado do reino natural, um sensor maturado por milênios de “tentativa e erro” no jogo de revezamento das gerações. O que nele não são receptores sensoriais, é organismo cuja função é manter ativas as faculdades perceptivas, logo: por sua natureza mesma, o destino do corpo é sentir. A visão entra para os produtores de imagens – artistas, designers, cineastas, ilustradores, etc. como um entrave, no entanto, uma vez que guarda um processo interno de interrupção do sensível. No trecho abaixo, extraído de uma orientação, sintetizo, grosso modo, esse funcionamento:

Blindando a própria ação perceptual, esse mecanismo de economia de energia cria um paradoxo, especialmente trágico para o Desenho de observação: os olhos não entregam o presente, os eventos do agora, a realidade circundante nesse momento – ao contrário, ele está produzindo uma espécie de realidade paralela, constituída de memórias passadas, pressupostos idealizados do mundo, imagens baseadas que tive das coisas quando de suas primeiras impressões.

Toda a minha atuação docente dos últimos 20 anos tratou de equacionar esse problema da visão. Como não poderia deixar de ser, a questão invadiu também minha produção plástica, onde tive que representá-la de outro modo: afinal, ali se trata de imagens elaborando formas de ver, não o contrário.

Já na graduação, a questão dos limites da observação se fez presente, reforçada quando na iniciação científica analisei processos de apreensão da imagem. Não é segredo que desenhar é difícil, o mistério é precisamente a natureza da dificuldade nisso que, de um lado é um ato infantil espontâneo e natural e, de outro, concedido a poucos escolhidos por graça de um dom divino.  

DANIEL SEGROVE (técnica mista)

É comum se tomar o “ensinar a ver” como objetivo didático de todo curso de desenho. Contudo, dar consequência a isso implicaria entender a visão como ação perceptiva (ou “experiência visual”), intrínseca ao complexo sistema sensorial do corpo – e não apenas como recepção passiva de sinais luminosos. Guias e manuais, no entanto, nunca encaram essa dimensão.  

Nas dezenas de instituições em diferentes cidades onde ministrei cursos, os limites da observação não eram devidos à desatenção ou imperícia dos alunos. Repetiam-se com regularidade perturbadora nas suas produções, e pareciam indicar uma estrutura bem definida. Um exemplo dá palpabilidade ao problema: monto uma pose onde o modelo vivo está deitado, para depois encontrá-lo, infalivelmente, representado de pé no trabalho de um ou mais orientandos, nem sempre iniciantes. pós anos de observação do fenômeno, uma conclusão era inevitável: o modelo não estava sendo visto. Cada um enxerga de modo particular; meus alunos, no entanto, estavam “não vendo” de uma mesma forma. Além disso, um padrão inconfundível surgia na repetição das soluções gráficas, especialmente ao se tratar de escorços, apontando homogeneidade nas percepções, sem dúvida, oriunda de uma causa comum.

A dificuldade em observar estaria em que tipo de inabilitação do olhar? Seria um problema nos método de ensino, ou em contingências próprias do aparelho visual dos educandos? 

Essas e outras questões são respondidas na Orientação do Processo de Criação – que ofereço na modalidade online, acompanhando artistas iniciantes ou intermediários na busca de uma “poética” de trabalho.

*Esse texto é parte de minha pesquisa de Mestrado no Programa de “Cultura, Filosofia e História da Educação”, que atualmente curso na Faculdade de Educação da USP.

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Capa: IRENE GONZÁLES | desenho em carvão
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Uma resposta a “Visão e poética artística”

  1. Avatar de O fazer da arte – GUSTAVOT DIAZ

    […] de que nos relacionamos com imagens do mundo (não diretamente com o mundo). Conforme adiantei aqui e aqui, o mundo é obstruído a nós pela própria configuração dos sentidos: ao mesmo tempo em […]

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