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Procedimentos técnicos do desenho

Qual o sentido do desenho de Retrato?

Parte do conteúdo teórico a ser ministrado no Workshop “Desenho de Retrato” (Porto Alegre| 14, 15 e 16 de Dezembro | 2016) Mais informações aqui!

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RICHARD MORRIS, Sem título 2 | carvão sobre papel, 2014

Ao desenho de Retrato se atribui de antemão uma dificuldade natural. A primeira tarefa do desenhista que se ocupa deste gênero é, portanto, desmistificar essa crença compreendendo precisamente em que consiste essa dificuldade. As causas são de ordem tanto plástica (formal), quanto simbólica (conceitual). As primeiras dizem respeito à bem conhecida dificuldade do “detalhe”. Desenhar detalhes é difícil porque são partes que vemos menos – as soluções de síntese tornam-se assim muito obtusas. Noutros termos: a abstração intrínseca às soluções formais é maior. Por exemplo, por que nunca ficamos bem em retratos 3×4; por que sequer se parecem conosco? Justamente porque em retratos muito pequenos a síntese realizada é muito extrema e faz com que tenhamos que eliminar vários elementos da face. Continuar lendo Qual o sentido do desenho de Retrato?

REFERÊNCIAS AO DESENHO DA FIGURA

 

166057_4267881059442_1101729581_nO artista e crítico francês André Lhote diz que “a beleza do corpo está nas articulações”. Diz mais, ao afirmar que a supremacia dos artistas renascentistas em relação aos góticos do período anterior reside no conhecimento que aqueles possuíam de artrologia – ciência que estuda a forma com que os ossos se articulam uns aos outros.

É sabido que não basta conhecer as partes constituintes do tecido esquelético para se desenhar bem a figura. O diferencial necessário está na capacidade de o artista projetar o movimento em seu modelo – que no corpo é resultado da forma específica de suas articulações. São elas que possibilitam os movimentos que a musculatura irá operar no esqueleto.

A Anatomia Artística é um método cada vez mais presente no ensino do desenho – aliás, sua presença de fato retorna de um passado longínquo, que no Brasil teria encerrado suas atividades por volta de 1970. Ela, porém nunca foi abandonada de todo, e é capaz de mediar ainda o conhecimento que hoje se tem da figura. Constando como disciplina da grade normal no magistério brasileiro desde 1947, até recentemente era visto em alguns currículos de graduação em Artes, ainda que apenas pro forma. Seu ensino efetivamente direcionado à arte é ainda raro no Brasil, mas no exterior faz parte regular dos conteúdos práticos do artista.

Atualizamos diversas referências de Anatomia Artística a fim de auxiliar o desenhista iniciante. No seguinte link oferecemos dezenas de sites relacionadas ao desenho do Corpo – guias de desenho da figura e manuais de Anatomia, centenas de imagens de modelos em alta resolução, e links diversos – tudo para download. Segue ainda uma lista de artistas que atualmente trabalham com a “representação realista” do corpo, com uma sessão especial dedicada à arte brasileira contemporânea:

http://wp.me/p4ZVe4-12

Anatomia e Figura Humana, Oficina semestral, 2016, II

DESENHO ANATÔMICO: O CORPO DESVENDADO

GERAR DE LAIRESSE | Ilustração para o Tratado de Bodloo “Medicinae Doctoris & Chirurgi, Anatomia Hvmani Corporis” (1685)
GERAR DE LAIRESSE | Ilustração para o Tratado de Bodloo “Medicinae Doctoris & Chirurgi, Anatomia Hvmani Corporis” (1685)

Sem saber não é possível enxergar. Até que eu indique ao aprendiz a “luz refletida” dentro da “sombra própria” de um objeto, ele não a percebe; até que conheça a existência da clavícula no retrato de perfil, o desenhista não a vê. É necessário saber, conhecer as formas para que a visão se habilite… Depois disso, é necessário esquecer o que se sabe, para enfim desenhar. Continuar lendo DESENHO ANATÔMICO: O CORPO DESVENDADO

Desenho: a diferença entre “copiar”, “colar” e “criar”

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MARK SIJAN | escultura

O que possibilita participação ativa na esfera da arte é o saber das linguagens. O conhecimento dos códigos constitutivos das categorias artísticas permite uma apreciação qualificada; mas há sempre algo que escapa, mesmo ao melhor crítico, ainda ao diletante mais perspicaz: o interior da técnica. Claro, saber “ler” um desenho a carvão não é o mesmo que saber “desenhar” com este material – o expectador de um desenho estará sempre “de fora”, como se visse um espelho da coisa, com o qual não pudesse interagir.

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Desenhos do Corpo | EXPOSIÇÃO

As primeiras reuniões de artistas no cinquecento, em Florença – que redundariam na primeira Academia, tinham um objetivo comum: o desenho dal nudo ou dal naturale. O que os italianos chamam hoje dal vero, ou desenho de modelo vivo, era o fundamento da educação artística até o século XIX. As Academias brasileiras, contudo, derivaram do modelo francês constituído em meados do XVII.

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RETRATO | Anatomia & Realismo Contemporâneo

Dentre as expressões artísticas, o Retrato é, sem dúvida, a mais icônica. Utilizado por metonímia como sinônimo de “representação”, já no período anterior à era imperial, os romanos cultivavam na retratística um impressionante realismo. Este fato constitui um curioso “anacronismo”, se supormos que o ferramental e a disposição subjetiva realistas tenham se dado apenas a partir das condições criadas no Renascimento, ou apenas no século XIX (conforme aprendemos com Erich Auerbach). Porém, escritores da antiguidade já dedicariam estudos ao tema, tamanha era a autoconsciência do significado do Retrato – tanto na esfera pública, quanto privada. Essa pregnância temática garante-lhe autonomia de categoria plena dentre as expressões artísticas, e assim como o “nu” – o Retrato pode também ser considerado uma “forma mesmo de arte” (vide Kenneth Clark). Continuar lendo RETRATO | Anatomia & Realismo Contemporâneo

FIGURA CONTEMPORÂNEA: A técnica do desenho e a ressignificação Hiper-realista (Parte II)

CHRISTOPHER STOTT | "Dream Days" (óleo sobre tela, 14' x 18')
CHRISTOPHER STOTT | “Dream Days” (óleo sobre tela, 14′ x 18′)

Segunda parte do conteúdo a ser ministrado na Oficina
“FIGURA CONTEMPORÂNEA:  Técnicas tradicionais e Hiper-realismo” (Florianópolis | 23, 24 e 25 de Fevereiro | 2016)

Uma crença bastante comum é a de que o desenho seria fruto da introspecção do artista – uma suposta “imersão às profundezas de si mesmo”. Por conta de ilusões românticas assim, são necessárias novas formulações acerca do tema. Essa abstrata “imersão” de que se fala, e mesmo esse “si mesmo”, não são na realidade elementos dados; são representações. Não há um “si mesmo”, e se houvesse, seria um esforço humano por natureza – que é nossa constante defesa psíquica contra à existência. Vladmir Safatle desenvolve de forma brilhante esse último tema. Continuar lendo FIGURA CONTEMPORÂNEA: A técnica do desenho e a ressignificação Hiper-realista (Parte II)