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OS PARADOXOS DO DESENHO: NOTAS PARA UMA EPISTEMOLOGIA

PAU MARINELLO (detalhe da série “Brave New World”) | mixed media sobre papel

Parte do conteúdo teórico a ser ministrado no Workshop“Figura Contemporânea” (Porto Alegre | 28 de março, 04, 11 e 18 de Abril | 2017) Mais informações aqui!

 

O Desenho opera mediações entre inúmeros paradoxos, desde o lugar do próprio desenhista – um espaço entre duas experiências: a experiência que advém no momento de ver; e outra, aquela que deseja provocar no olhar do expectador. O objetivo último do desenhista é processar (recriar plasticamente) a experiência visual que recebe, de modo a fazer conhecer ao espectador também essa experiência. Assim, desenhar é viver e produzir experiências. Continuar lendo OS PARADOXOS DO DESENHO: NOTAS PARA UMA EPISTEMOLOGIA

DESENHO ALÉM DA TÉCNICA: PARA UMA EPISTEMOLOGIA DO ARTESANAL

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NICOLAS SAMORÌ, “Acquario” | 2013, óleo sobre tela (200x150cm)

O Desenho é uma prática que se confunde à história das civilizações, dado a extensão histórica e geográfica de sua expressão. Sua abrangência impõe uma compreensão associada à própria organização societal, devendo-se incorporar em sua interpretação um viés filosófico para além da mecânica da técnica. A natureza criativa desta atividade e a complexidade das operações de síntese que a compõem (formais e conceituais) impedem que seja reduzida a um mero debate de materiais. No presente texto apresentamos algumas elaborações que podem servir de premissas para uma enunciação epistemológica dos limites e prerrogativas dessa artesania que instrumentalizou o imaginário humano desde tempos imemoriais. Continuar lendo DESENHO ALÉM DA TÉCNICA: PARA UMA EPISTEMOLOGIA DO ARTESANAL

O Desenho e o Real (esboços)

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ALEJANDRO GARCIA RESTREPO | grafite sobre papel

Desenho é síntese: transmutação da substância inerte dos materiais expressivos em “signos”, e consequente apropriação dos elementos sígnicos em linguagem visual. O modo como ele opera passa pela reconstituição da impressão sensível, recriando as coordenadas da experiência visória. Para desenhar é, portanto, necessário criar – não a identificação (mera similitude entre desenho e coisa desenhada), mas a estesia sentida na apreciação estética do mundo. É por essa via que o desenho realiza sua destinação mais profunda: a geração de sentido.

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DIA MUNDIAL DO DESENHISTA: HOMENAGEM AOS 11 MELHORES DESENHISTAS CONTEMPORÂNEOS

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ANNEMARIE BUSSCHERS (2011) | “Beyond grief II (Self Portrait XII)”, técnica mista, 160 x120 cm

O Dia Mundial do Desenhista (15 de Abril) é propício para homenagear a coragem desses 11 profissionais que aceitaram o desafio de 1) serem artistas e 2) serem artistas “realistas”. Todos eles utilizam técnicas tradicionais, mas estão longe de posarem de antiquados, retrógrados ou saudosistas.

Pelo contrário, estão muito bem sintonizados às questões contemporâneas: assimilam em seus trabalhos – cujo temática central é a figura humana – dimensões políticas, culturais, sociológicas, psíquicas, etc, e descobriram que o preconceito contra o passado artístico e o descarte da tradição não os torna “modernos”; muito menos “contemporâneos”. Todos eles entenderam a legenda de Ezra Pound: “– Make it new!”, e ressignificam a tradição artística e o legado dos mestres do passado todos os dias…

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O “CORPO HUMANO NA ARTE”: COMO (E POR QUE) DESENHAR? (II)

O essencial é saber ver.
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.
Álvaro de Campos

Toda técnica do desenho, em seu sentido pragmático, está contida nos próprios materiais expressivos e só se é possível realizar seu objetivo expressivo através do uso adequado destes materiais. Por exemplo, a maneira como eu aponto meu lápis – início indispensável do qual toda a prática depende – determina minha postura diante do suporte. E este, por sua vez, é condicionado à escolha do lápis.

Fábio Magalhães  Onde moram os Devaneios Óleo sobre tela  210 x 230 cm 2013
Fábio Magalhães, “Onde moram os devaneios” | óleo sobre tela, 2013

Mas o fato é que muitos desenhistas têm uma preocupação excessiva, quase obsessiva com a técnica em si mesma; e a arte não está aí.   Continuar lendo O “CORPO HUMANO NA ARTE”: COMO (E POR QUE) DESENHAR? (II)

O “Corpo Humano na Arte”: como (e por que) desenhar?

Nunca aprendi a existir.
Fernando Pessoa

A diferença entre a articulação processual chamada “técnica” e a estruturação “tecnológica”, é que enquanto, a primeira repete procedimentos metodológicos já avaliados, a segunda demanda a criação de novos saberes a fim de desenvolver-se (e desenvolve-se justamente na medida em que cria esses saberes). O exemplo mais claro disso é o telescópio – criado nos Países Baixos e elaborado por Galileu Galilei. No instante em que este cientista alterou seu uso comum, executando um gesto que iria revolucionar não apenas a ciência, mas a concepção da humanidade sobre si mesma girando o telescópio em 90º a fim de mirar o céu com o objetivo de investigar as estrelas, o telescópio imediatamente passou a demandar novas técnicas para aperfeiçoamento da lente, o que deu início a novos estudos em Ótica e Astronomia e ciência em geral: com suas observações, Galileu forneceu evidências da rotação da Terra. O telescópio é assim literalmente um aglutinado de observações que geram novas possibilidades de observação e perspectivas; essas retroativamente alimentam e alteram o uso do próprio telescópio. Continuar lendo O “Corpo Humano na Arte”: como (e por que) desenhar?