Dia Mundial do Desenhista

Hoje, no Dia Internacional do Desenhista, compartilho dois breves poemas que escrevi acerca do Desenho, refletindo sobre essa técnica que, não obstante aplicada, nos permite pensar o mundo (e construir outros dentro dele). Parabéns a todxs xs desenhistas do mundo… Uni-vos!

GUSTAVOT DIAZ, "Santa Luzia I" 2020, da série INVESTIGAÇÕES SOBRE AS CONDIÇÕES DO OLHAR | mixed midia sobre papel Montval (70x90cm)
GUSTAVOT DIAZ, “Santa Luzia I” 2020, da série INVESTIGAÇÕES SOBRE AS CONDIÇÕES DO OLHAR | mixed midia sobre papel Montval (70x90cm)

 

modelo vivo

 
(como é distante a escuta de si mesmo)
o desenho compõe
uma escarpa de abismo
       em cada traço
despedaça o abrigo
       em que o artista supunha
riscos traços ciscos:
inútil mímica ante à tela
 
no solitário lide com a matéria
nada diz
       além do que o branco puro –
aparente ponto de partida
       da pintura
(não puro, no sentido volátil do termo
mas produto da luta do pintor
contra o demônio da inspiração
       que nunca encarna):
além do que o branco original da tela
       já disse
 
quem fala são as mãos
que o pintor dota de visão
para poder ele próprio
ver o modelo que posa
expondo à luz, à distância
       a nudez travestida de sombras –
alheia a que o pintor vê
       distinta da que se exibe na tela
 
quem guia a sessão –
desenhista, modelo, pincel?
que diálogo silenciam
até que, ambos reféns da matéria
dissolvido o pintor
exausta a modelo
(inculta gravidade que dispensa contemplações)
interrompam seu jogo de espelhos
       para fugir do tempo
 
(a tela, contudo, permanece
durará para além do pintor e da modelo
       durará pelos séculos
mas não sempre:
as cicatrizes do óleo
se abrirão na impermanência da trama
       craquelando as feições
os olhos que decifraram seu enigma
       morrerão
e a imagem, cumprido seu fim
tornará um dia a fechar-se
       no abismo)
 
 
*
 

desenho

 
que hoje a imagem
na retina impregnada
não suje a flor do amanhã:
é comum a memória poluir
      o olho
 
ação outra é a da artesania
      das mãos
onde tudo é inédito
      salvo a mão artesã
que sabe e revela o ambíguo na evidência
e o deserto no horizonte da fidúcia
 
difícil é a conquista do desenho:
inquieto, recusa a mão
foge à forja durável da forma –
a etérea linha furta-se
      à pedra do papel
 
(anfíbia, muda linguagem dura
no mutismo da pedra
      antes do cálculo ourives
 
e sua imprescindível precisão de gozo)
 

 

Gustavot Diaz
 
GUSTAVOT DIAZ, "Olho mágico I" 2020, da série JANELAS PARA NÃO VER | carvão e pastel sobre papel (20x15cm)
GUSTAVOT DIAZ, “Olho mágico I” 2020, da série JANELAS PARA NÃO VER | carvão e pastel sobre papel (20x15cm)

.

.

.

.

.

.

imagem da capa | MELISSA COOKE BENSON em seu estúdio

.

.

.

.

.

.

Publicado por Gustavot Diaz

Desenhista e pintor, co-fundador do espaço artístico MÍMESIS | Conexões Artísticas em Curitiba, e ministrante de Oficinas de Anatomia Artística e Desenho o Corpo Humano com Modelo Vivo em Porto Alegre (RS), onde reside e trabalha.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: